AFINAL, NECA SETUBAL É BANQUERIA OU
EDUCADORA?
Coordenadora do programa de governo de Marina
Silva, Neca Setubal deflagra, nesta quinta-feira, uma operação midiática para
sair das cordas e deixar de representar um peso para sua candidata; em
entrevista ao Estado de S. Paulo, ela diz ser alvo de "preconceito";
na Folha, conta com uma generosa reportagem em que é sempre identificada como
"educadora"; no entanto, ela própria diz que vive com os dividendos
que recebe como acionista do Itaú e foi na condição de banqueira, não de
educadora, que ela doou R$ 1 milhão ou 83% de todos os recursos do instituto de
Marina Silva; na primeira entrevista que concedeu, após a morte de Eduardo
Campos, a acionista do Itaú defendeu a agenda dos bancos e não mencionou a
palavra educação uma única vez; até o fim da disputa, Neca não sairá da linha
de tiro

A
coordenadora do programa de governo de Marina Silva, Maria Alice Setubal,
conhecida como Neca, deflagrou, nesta quinta-feira, uma operação para tentar
sair das cordas e deixar de representar um peso para sua candidata, depois que
as pesquisas eleitorais desta semana apontaram os primeiros problemas na
campanha do PSB. Em dois levantamentos, da CNT/MDA e do Datafolha, Marina
perdeu pontos e passou a estar em empate técnico com a presidente Dilma
Rousseff no segundo turno. Uma das razões é o fato de Marina estar extremamente
associada a Neca, herdeira do Banco Itaú, que deu a ela R$ 1 milhão no ano
passado (83% de toda a receita do seu instituto).
A
ação de imagem de Neca Setubal envolveu dois jornais paulistas. Ao Estado de S.
Paulo, ela concedeu uma entrevista à colunista Sonia Racy, em que diz ser alvo
de um preconceito contra banqueiros que vem desde a Idade Média. Na mesma
entrevista, enfatiza sua condição de "educadora". Na Folha, ela
contou com uma generosa reportagem, que vai na mesma linha. "Acionista do Itaú e colaboradora
do Itaú viveu afastada dos negócios da família", diz o título
(leia aqui).
O
tom da reportagem não poderia ser mais claro:
Aos 63 anos, a educadora Maria Alice
Setubal, mais conhecida como Neca, é dona de 1,3% das ações do grupo (o
equivalente a 0,5% do Itaú Unibanco), mas nunca teve cargo nas empresas
comandadas pela família.
Ela já deu aula em escolas e numa
faculdade, e trabalha há anos com educação, cultura e projetos sociais. Seus
filhos também estão fora do Itaú. Os dois rapazes trabalham em bancos
concorrentes. A filha é psicanalista.
Neca
não tem, praticamente, nada a ver com os destinos do Itaú. E a orientação
interna da Folha, que talvez tenha marinado, parece ser tratá-la sempre como
"educadora".
O
problema, no entanto, é que foi a própria Neca quem escolheu desempenhar o
papel de banqueira e porta-voz da agenda dos bancos na campanha de Marina.
Afinal,
foi na condição de banqueira ou educadora que ela doou 83% dos recursos do
instituto que se dedica a alimentar o mito Marina Silva?
O
ponto mais importante não é esse. Logo após a morte de Eduardo Campos, Neca
Setubal passou a falar em nome da candidata Marina Silva, numa entrevista
concedida ao jornalista Fernando Rodrigues, e defendeu a agenda dos bancos. O
título da reportagem foi explícito: "Marina Silva acena ao mercado e
promete autonomia para o BC" (leia aqui).
Na
longa entrevista, a "educadora" Neca Setúbal não menciona uma única
vez a palavra "educação". No entanto, discorre longamente sobre metas
de inflação, autonomia do Banco Central e outros temas econômicos. Diz,
inclusive, que Marina concederá autonomia ao BC, mesmo sem concordar com esta
tese. Eis um trecho:
Eduardo Campos falou várias vezes que a
meta de inflação seria perseguir 4,5% nos próximos quatro anos para assumir uma
meta, de 3%, a partir de 2019. Isso vai estar explicitado no programa?
Vai.
Dessa forma?
Dessa forma. Exatamente. A meta de inflação vai para o centro,
para 4,5%, ao longo do governo de quatro anos. Para depois chegar a 3%. Isso
está explícito.
Economistas ortodoxos e alguns do
governo dizem que para reduzir a inflação ao longo de quatro anos nesse nível
seria necessário aumentar juros e produzir desemprego no país. Esse tema é
tratado no programa?
Não dessa forma, não vai dizer. Acho que não existe "vou
aumentar juros". Nenhum programa vai colocar dessa forma.
O capítulo de economia tem um olhar que combina com uma parte da
gestão de recursos naturais. Busca-se um diálogo com o desenvolvimento
sustentável.
O Eduardo [Campos] tinha um compromisso com o social. Ao mesmo
tempo que enfatizava a gestão, nunca perdia de vista o compromisso com a
questão social. Ele dizia que conseguiria compor: trazer a inflação [para o
centro da meta] e ter responsabilidade fiscal. No programa de governo tem o que
ele falou. Ele já havia falado de ter um conselho de fiscalização.
Marina, como o programa já está pronto,
concordava com todos esses pontos e vai assumi-los?
Vai assumi-los. Vai assumir todos os programas. Ela tinha se
posicionado em alguns pontos de uma forma diferente do Eduardo. Por exemplo, o
caso do Banco Central. Ela achava que não era necessário ter uma autonomia
formal do Banco Central. Ela não achava que precisaria...
De uma lei...
...De uma lei para dar mais autonomia. Mas acho que são os
consensos. Existiam diferenças e o programa reflete o que é de consenso. Então
ela, enfim, aceitou isso.
No caso do Banco Central, como Eduardo
propunha autonomia, mandatos para o presidente e diretores, isso tudo está
mantido e será assumido por Marina?
Será assumido pela Marina. A declaração dela é que vai assumir
todos os compromissos do Eduardo.
No caso do Banco Central, uma lei seria
proposta?
Muitas vezes, Marina falava: "Bom, isso não era a minha
posição, mas essa foi a posição do Eduardo e a gente concordou com isso".
Então, ela vai assumir essas posições.
A autonomia do Banco Central?
É.
A
entrevista de Neca Setubal após a morte de Campos deixa absolutamente claro que
ela não falava como "educadora", mas sim como "banqueira".
Ou, na melhor das hipóteses, como herdeira de um grande banco, cujos dividendos
a sustentam, assim como o instituto Marina Silva.
BRASIL 247 11 de setembro de 2014 às 05:54
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 11.09.2014 09h20m
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