J.
CARLOS DE ASSIS: DILMA REVERTE, NA GLOBO, O MASSACRE QUE IRIA SOFRER
Devo
me desculpar pelo que disse anteriormente sobre a inabilidade da Presidenta
Dilma Roussef em matéria de comunicação de massa: ela deu um show de
competência televisiva no Bom Dia Brasil da Globo, nesta segunda-feira,
revertendo sobre a cabeça dos entrevistadores o verdadeiro massacre que estava
preparado pela emissora para desqualificá-la politicamente. O circo
armado com Ana Paula Araújo e Chico Pinheiro, reforçado pelas baterias de
Miriam Leitão, caiu sob a própria lona numa capitulação forçada e sem graça.
É evidente que a presença de Miriam, supostamente competente em
números, era para estraçalhar a Presidenta no meio de um cipoal de estatísticas
enviesadas. Acostumada a manipular informações em artigos de jornal, sem o
incômodo do contraditório, ela esbarrou numa serena exposição de fatos que a
deixou simplesmente desarticulada. Quis passar ao telespectador a opinião
absurda de que o Brasil se encontra em pior posição em matéria de crescimento
econômico do que os países da Europa. Dilma fulminou seus argumentos.
É interessante notar que a Presidenta, em seu horário eleitoral,
se torna às vezes cansativa quando desfila um grande número de estatísticas e
dados numéricos. É da natureza dela, trazida de seu tempo quando devia
comportar-se sobretudo como gerente. Na entrevista da Globo, contudo, quem
colocou números na mesa foi a entrevistadora. Isso gerou uma controvérsia. E,
como se sabe desde Platão, a dialética é esclarecedora. Confrontada com números
falsos ou capciosos Dilma respondeu na ponta da língua com seus próprios dados,
e a coisa toda funcionou a seu favor.
A Presidenta está muito bem informada sobre o que acontece na
economia mundial. Rechaçou com números as alegações de que o crescimento do
Brasil está num nível inferior ao da Alemanha. Ela tem razão. O
crescimento da Alemanha no segundo trimestre foi de 0,8%, na mesma faixa do
Brasil. Isso, contudo, não é o mais importante. O significativo é que o
crescimento econômico em toda a Zona do Euro foi de 0% no segundo trimestre,
bem abaixo do Brasil. E, nos países individualmente, o ritmo nos últimos 12
trimestres tem sido o de contração em oito deles, e crescimento perto de zero
em apenas quatro. No Brasil, até o momento, não houve contração trimestral.
A acusação de Miriam relativa ao emprego de jovens é outra
tentativa de afirmação capciosa: ela não comparou as taxas de desemprego de
jovens no Brasil ao desemprego nessa faixa etária de outros países, sobretudo
na Europa. Jogou um número, 13,7%. Se tivesse acrescentado que o desemprego de
jovens em países como a Espanha e Grécia chega a mais de 60% seria fácil
concluir que a situação no Brasil é ainda tolerável. De fato, a situação mais
grave de desemprego é quando atinge os adultos, os chefes de família. E, nessa
faixa, a ocupação no Brasil tem batido recordes, com uma taxa de desemprego das
mais baixas do mundo.
A boa performance de Dilma coloca em xeque um tipo de jornalismo
tendencioso e agressivo que, sendo ele próprio um fenômeno de manipulação,
tenta conduzir a campanha presidencial segundo suas próprias preferências. Isso
está disseminado na mídia eletrônica, que opera sob concessão pública e
portanto deveria ser mais discreta em manifestar preferências. É o jornalista
que quer aparecer, quer brilhar e, no caso, servir aos gostos políticos do
patrão sob o pretexto de informar ao eleitor.
Ninguém quer um jornalismo subalterno nem absolutamente
imparcial. Mas é essencial, para a democracia, um jornalismo honesto. Tenho
suficientes décadas de jornalismo para aconselhar os mais jovens a seguir o
exemplo dos entrevistadores da revista alemã “Der Spiegel”, para mim os mais
competentes do mundo, que conseguem extrair tudo do entrevistado, com absoluto
rigor profissional, sem, entretanto, pretender desqualificá-lo e
agredi-lo. Infelizmente, nossos entrevistadores de televisão estão
seguindo por escrito o caminho dos paparazzi italianos!
J.
Carlos de Assis - Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia
Internacional da UEPB.
JORNAL GGN 23 de setembro de 2014 08:27
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 24.09.2014 03h24m
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