AS
FALSAS DISCUSSÕES SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO BANCO CENTRAL
por Luis Nassif
A
discussão sobre a independência do Banco Central é das mais inócuas produzidas
pela atual campanha eleitoral.
Marina Silva e Aécio Neves propõem a independência do Banco
Central; Dilma Rouseff rebate, garantindo que seria colocar o BC a serviço dos
banqueiros. Os economistas do outro lado reagem, o Procurador Geral da
República sustenta que a afirmação de Dilma pode trazer intranquilidade geral.
Nessa barafunda irrestrita, não se discute apenas o essencial: o papel do BC.
Com independência de direito ou de fato, há muito o BC deixou de
ser um instrumento eficaz de políticas públicas. Com Armínio Fraga (FHC),
Henrique Meirelles (Lula) ou Alexandre Tombini (Dilma) foi incapaz de criar um
mercado de crédito de longo prazo, corrigir práticas viciadas do período da
hiperinflação, desobstruir os canais de crédito para garantir um mínimo de
eficácia ao uso da taxa Selic, e sofisticar suas análises para mirar dois alvos
comuns a qualquer BC desenvolvido: preços e emprego.
A
maneira como atua sobre a inflação é deletéria.
Vale-se exclusivamente do canal de juros. Aumenta a expectativa
de inflação, ele aumenta a Selic mais que proporcionalmente. Nesse movimento,
os detentores de títulos de renda fixa ganham com a inflação, à custa do
aumento da dívida pública, atrai capital especulativo para se beneficiar dos
juros, apreciando o câmbio.
Há um bom acervo de trabalhos acadêmicos mostrando que os canais
de transmissão dos juros não funciona no país., O aumento da Selic não afeta o
crédito ao consumidor - devido à diferença de nível entre as taxas. Mas afeta
os investimentos ao influir nas taxas de juros de longo prazo.
Amplia o custo da dívida pública na veia, no maior pagamento de
juros e também no diferencial entre o custo de carregamento da dívida e as
taxas de juros do crédito direcionado e dos financiamentos do BNDES.
O único efeito sobre os preços se dá através da apreciação
cambial, com todas as contraindicações conhecidas.
Desde
a implantação do sistema de metas inflacionárias, em nenhum momento o BC
cuidou de desobstruir esses canais. Contentou-se com o trabalho burocrático de
montar simulações de inflação e garantir o ganho desproporcional dos
investimentos, tanto maior quanto maior a expectativa de inflação.
Nos
últimos anos, o único avanço obtido - a redução dos spreads bancários - deu-se
pela competição dos bancos públicos, não pela atuação do BC.
No
exercício dos instrumentos de metas inflacionárias, o BC conseguiu transformar
o rentista em sócio da inflação; impediu a reciclagem da poupança para capital
de risco; desestimulou os ganhos de escala das grandes corporações, fazendo-as
se contentar com os ganhos de tesouraria.
Não é à toa que em cada relatório da Focus (o sistema semanal de
levantamento de expectativas do mercado) há quase uma celebração a cada aumento
de expectativa da inflação.
A
discussão profícua deveria ser sobre a maneira real de combater a inflação, as
mudanças na dívida pública, a redução da indexação, o uso de instrumentos
tradicionais de controle de choques de oferta (estoques reguladores).
Não esse jogo retórico que, se mantido, manterá o BC no espírito
mediocrizado de sempre, independentemente de quem seja o próximo presidente.
A submissão do BC ao mercado se dá pelas regras de atuação a que
está submetido, não pela independência operacional ou formal.
JORNAL GGN 19 de setembro de 2014 06:00
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 20.09.2014 05h30m
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