UM TIRO QUE MUDOU PARA SEMPRE A
HISTÓRIA DO BRASIL
Ele saiu
da vida para entrar para a história como um dos mais polêmicos presidentes do
Brasil. Há 60 anos, no dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas se suicidou com
um tiro no coração em seu quarto no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. O
episódio mudou o rumo do país e evitou o golpe militar arquitetado contra ele.
O tiro
ressoou em toda a Nação. Para o historiador da Universidade Federal do Paraná
(UFPR) Dennison de Oliveira, o episódio eternizou a mística de Vargas como ?pai
dos pobres? e defensor do Brasil. Antes do disparo fatal, a Presidência de
Vargas era ameaçada pelos opositores.
Em maio
daquele ano, ele concedeu um aumento de 100% no salário mínimo. O jornalista e
pesquisador Eduardo Bueno escreve que esse fato fez o ?estopim da crise ser
aceso?. Não contente, o então presidente discursou aos trabalhadores. ?Hoje
vocês estão no governo. Amanhã serão governo?. Foi o que bastou: para a União
Democrática Nacional (UDN ? partido opositor a Vargas), para os conservadores e
os militares, era preciso derrubar Vargas?, escreveu Bueno. Faltava um pretexto
que não tardaria a aparecer.
Pela
culatra
O maior e
mais ruidoso crítico ao presidente era o deputado e jornalista Carlos Lacerda,
que figurava como o principal líder da oposição. Com apoio da mídia, Lacerda
exigia a renúncia de Vargas e apelava às Forças Armadas para que elas
restabelecessem a democracia e a ordem no Brasil.
Para quem
frequentava o círculo getulista era preciso dar um jeito em Lacerda. Fiel a
Vargas por três décadas, o chefe da guarda presidencial, Gregório Fortunado, conhecido
como Anjo Negro, foi apontado como o responsável por tramar o assassinato de
Lacerda. Há quem diga que o irmão de Vargas, Benjamin, seria o verdadeiro
mandante ? o que nunca ficou provado.
O tiro
saiu pela culatra. No dia 5 de agosto, dois pistoleiros tentaram matar Lacerda
na porta de sua casa na Rua Toneleros, em Copacabana. O resultado foi o pior
possível para o governo que, segundo a imprensa, passou a se ver mergulhado em
um ?mar de lama?. No atentado, morreu o major da Aeronáutica Rubem Vaz, que
atuava como segurança do jornalista. Lacerda teria levado apenas um tiro no pé.
A
Aeronáutica investigou o crime e provou que o plano fora arquitetado dentro do
Palácio do Governo. Em 29 horas, os culpados foram presos. A punhalada pelas
costas, como Vargas classificou o episódio, abalou moralmente o presidente
perante a sociedade.
No dia
23, 30 generais lançaram o Manifesto à Nação, que era um ultimato para Vargas
deixar o poder. Na mesma noite ele convocou uma reunião ministerial e avisou:
?Só saio morto do Catete?. Por volta das 4h30 do dia seguinte, um tiro ecoou
pelo palácio. Getúlio deixou também uma carta-testamento que se transformaria
num dos mais conhecidos documentos históricos brasileiros. Nela, Vargas fazia
uma declaração nacionalista e de amor ao povo brasileiro.
Mãe
dos ricos
O
historiador Dennison de Oliveira, autor do livro Os soldados alemães de Vargas,
afirma que uma das piadas mais conhecidas da época é que Vargas era o ?pai dos
pobres?, mas a ?mãe dos ricos?. ?Ou seja, essa anedota demonstra que o povo
tinha conhecimento de que se havia ganhos dos trabalhadores na Era Vargas,
muitíssimos maiores eram esses ganhos para os empresários.? As políticas de
Vargas beneficiaram a maioria dos setores empresariais. O acordo entre o
presidente e as elites, até então predominantemente agrárias, é que a CLT não
valia da porteira da fazenda para dentro. ?Isso aliviou as tensões dentro da
sua base de apoio, que englobava praticamente todos interesses econômicos
dominantes no país à época, quando a maioria da população ainda morava no campo.?
Golpe
adiado?
Será que
o suicídio de Getúlio teria adiado por dez anos o golpe militar no Brasil? Os
pesquisadores se dividem em relação ao tema. Segundo Dennison de Oliveira, o
que se sabe é que o golpe militar que se armava contra Vargas foi liquidado com
o suicídio dele. ?Incorre-se em raciocínio teleológico fazer qualquer relação
entre esse evento e os de dez anos depois: impossível demonstrar essa relação?,
assegura. Renato Carneiro Junior, porém, acredita que com o tiro no peito
Vargas conseguiu afastar temporariamente os militares do poder. ?Com sua morte,
ele afastou o golpe dos militares, apoiados por vários civis ligados à UDN e a
interesses norte-americanos, por dez anos.?
Gazeta do Povo 23/08/2014
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 26.08.2014 05h21m
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