Ofensiva patronal em 2015
será 'assustadora' e exigirá base social, alerta Diap
Analista observa que, apesar de críticas das
centrais, governo Dilma garantiu avanços no campo trabalhista. Outras
candidaturas representariam ameaças a direitos adquiridos

São Paulo – Se a bancada
trabalhista no Congresso não crescer na próxima legislatura, haverá risco de
perda de direitos mesmo em um eventual segundo governo de Dilma Rousseff,
alerta o diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap)
Antônio Augusto de Queiroz. A questão está na distribuição de bancadas no
Parlamento, hoje com ampla maioria patronal. "Tem projeto de tudo quanto é
gosto para prejudicar os trabalhadores. Esse é o grande desafio. Se não houver
base social, mesmo no governo Dilma a possibilidade de resistência será menor",
afirmou o analista político, durante entrevista a veículos alternativos, ontem
(6), organizada pela Agência Sindical e pelo Centro de Estudos da Mídia
Alternativa Barão de Itararé. "A investida patronal a partir do ano que
vem contra os trabalhadores será assustadora."
Ele
observa que, hoje, a correlação de forças já é desfavorável aos trabalhadores,
com uma bancada empresarial três vezes maior no Congresso (273 a 91). Mesmo
assim, houve uma série de avanços na atual gestão. "A bancada sindical foi
muito ativa. Nenhum deles deixou de rechaçar ameaças ou apoiar medidas. Se não
houvesse a pauta unificada das centrais, provavelmente muitos desses direitos
não teriam se materializado. A despeito de haver visão política distinta,
havia unidade de ação." As conquistas também se viabilizam, observa,
quando ocorre algum "alinhamento" da equipe econômica com o setor
produtivo.
Queiroz chama a atenção para as propostas em jogo na atual
eleição. Segundo ele, a manutenção de Dilma no Planalto representaria tensão
"média" na relação entre governo e movimento sindical. Com Eduardo
Campos (PSB), a tensão subiria para "alta", atingindo o nível de
"altíssima" em uma gestão Aécio Neves (PSDB). Na avaliação do diretor
do Diap, a eleição do tucano traria riscos claros a direitos sociais, como a
política de aumentos sistemáticos do salário mínimo. "O principal
conselheiro econômico de Aécio é Armínio Fraga (ex-presidente do Banco
Central), que não esconde de ninguém que quer a desindexação total da
economia", afirma. Pela definição do analista, Fraga não é apenas aliado,
mas "cria" do mercado financeiro.
Direitos
O Diap
elaborou um levantamento em que relaciona leis aprovadas nos dois últimos
governos (Lula e Dilma) para mostrar que, mesmo sob críticas das centrais
sindicais, vários itens foram aprovados no atual mandato. A relação para o
período 2011-2014 inclui 12 leis e duas emendas, que incluem teletrabalho (Lei
12.555/11), ensino técnico (12.513/11), ampliação do aviso prévio (12.506/11),
correção da tabela do Imposto de Renda (12.469/11), certidão negativa de débito
trabalhista (12.440/11), continuidade da política de valorização do salário
mínimo (12.382/11), vale-cultura (12.761/12), isenção de Imposto de Renda até
R$ 6 mil no pagamento de participação nos lucros ou resultados (12.832) e combate
ao trabalho escravo (Emenda 81/14), entre outros.
Na
análise de Queiroz, as queixas das centrais quanto à relação com o governo têm
origem em características pessoais dos mandatários. Lula conhecia profundamente
o mundo sindical e mantinha relações de amizade, recebendo com regularidade os
dirigentes. Dilma, de trajetória distinta, de certa forma delegou essa tarefa à
Secretaria-Geral da Presidência e ao Ministério do Trabalho e Emprego, tendo
assim menos encontros pessoais com representantes das entidades, o que teria
causado algum ressentimento.
Outro
item até agora não votado no Congresso, o Projeto de Lei 4.330, sobre
terceirização, deve voltar a ser discutido logo no início do próximo ano
legislativo. Para o diretor do Diap, a possibilidade de uma lei não (ou menos)
prejudicial aos trabalhadores é "média" com Dilma e Campos, mas
"baixíssima" no caso de Aécio. Ele observa que a regulamentação da
terceirização "em bases precarizantes" é uma das três prioridades do
setor empresarial, ao lado do Simples Trabalhista e do veto à Convenção 158 da
Organização Internacional do Trabalho (OIT), contra a demissão imotivada.
A
ofensiva em relação ao 4.330 no Congresso diminuiu com a mudança de alguns de
seus principais "impulsionadores", os deputados Arthur Maia e Laércio
Oliveira, para o Solidariedade, partido criado com base sindical. "Eles
tiveram de recolher as armas. O próprio empresariado deixou isso em segundo
plano para não expor seus aliados. Esse assunto no Congresso voltará em 2015
com muita força", observa Queiroz. Segundo ele, há ainda o risco de os
empresários levaram a questão até o Supremo Tribunal Federal.
Jornada
Antiga
reivindicação sindical, a redução da jornada de trabalho é uma possibilidade
com Dilma, desde que seja negociada. "Com Aécio, nem pensar", afirma
Queiroz. A alternativa, no primeiro caso, seria diminuir a jornada aos poucos –
Queiroz cita como exemplo uma redução de uma hora a cada dois anos, para chegar
às 40 horas semanais em oito anos. "Com a correlação de forças que existe
no Parlamento, nenhum governante conseguirá fazer de uma só vez."
O fim do
fator previdenciário, outro item da pauta das centrais, também é um tema
difícil de ser resolvido. "O movimento sindical insistiu na revogação pura
e simples", lembra Queiroz, acrescentando que essa alternativa se
mostraria inviável para a Previdência. "O governo estava disposto a
suavizar os efeitos do fator previdenciário." Uma ideia que chegou a ser
discutida foi estabelecer uma transição, como a fórmula 85/95 (soma dos tempos
de serviço e idade de mulher e homem, respectivamente).
O diretor
do Diap classifica como "perversa" a fórmula criada ainda no governo
Fernando Henrique Cardoso, que permitiu reduzir o valor das aposentadorias em
até 50%. "Uma pessoa que começou a trabalhar aos 18 ganharia só 60% do que
teria direito se aposentando aos 54 anos. Com essa transição, aos 57 anos ela
receberia integralmente o valor. Algumas centrais se opuseram. Agora, todas
estão de acordo."
A questão
a ser observada neste momento, aponta, é qual receita cada governo adotaria em
caso de crise: um "ajuste fiscal drástico, com redução de emprego e
salário e menos políticas sociais, com recessão" ou "políticas
anticíclicas, com ampliação de programas sociais".
Queiroz
também manifestou preocupação com o que chama de "descrença
generalizada" nas instituições, o que favorece os defensores da redução do
papel do Estado. "Isso é trágico, porque não há solução para os problemas
fora da política. Você desqualifica a política para qualificar o mercado. A
política está sendo apropriada pelo mercado. Esse financiamento de campanha é
uma temeridade."
por Vitor
Nuzzi, da RBA 07/08/2014 09:36
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 09.08.2014 06h57m
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