No Jornal Nacional, Dilma
defende era de avanços e ingresso em novo ciclo
Em entrevista, presidenta é
constantemente interrompida durante respostas. Apresentadores consomem quase
metade do tempo com corrupção e outra metade com saúde e economia
São Paulo – A presidenta Dilma
Rousseff afirmou hoje que seu governo e os do ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva foram os que mais estruturaram o Estado brasileiro com mecanismos de
combate à corrupção e que nenhum procurador-geral da República foi chamado de
“engavetador geral”. Os apresentadores do Jornal Nacional, da TV Globo, consumiram
mais de sete minutos com perguntas sobre corrupção. A presidenta respondeu
ainda sobre ações na área da saúde e teve menos de três minutos para rebater
expectativas negativas a respeito da economia.
A entrevistada foi provocada logo
de início pelo apresentador William Bonner a responder sobre “uma série de
escândalos de corrupção e desvios éticos” em ministérios e na Petrobras e sobre
o que chamou de “dificuldade de se cercar de pessoas honestas”. Dilma listou o
respeito à autonomia aos órgãos de combate à corrupção, como o MPF e a Polícia
Federal, que “pode investigar e pode prender”, a criação da Corregedoria-Geral
da União (CGU), órgão de fiscalização e defesa do patrimônio público, a
introdução da Lei de Acesso à Informação, que obriga todos os níveis de governo
a prestar esclarecimentos solicitados pela sociedade.
O apelido de “engavetador” é
atribuído até hoje ao ex-procurador-geral Geraldo Brindeiro, que chefiou o
Ministério Público Federal durante os dois mandatos de Fernando Henrique
Cardoso, de 1995 a 2003. No período, recebeu mais de 600 inquéritos, engavetou
(postergou a análise) 242 e arquivou (rejeitou) outros 217. As acusações
recaíam sobre deputados, senadores, ministros e o próprio presidente FHC – uma
delas a de compra de votos para aprovação da emenda que permitiu sua reeleição.
A
presidenta enfatizou ainda que nem todas as denúncias da “série” resultaram em
comprovação ou condenação. Mas assinalou que mesmo assim as pessoas acabavam se
afastando de seus cargos. Bonner insistiu no tema. Aparentava insatisfação com
o fato de a entrevistada dominar e estar disposta ao assunto e a interrompeu
questionando que os afastados eram substituídos por pessoas do mesmo partido,
“trocando seis por meia dúzia”. Dilma continuou a resposta de onde havia
parado, ponderando que muitas vezes os afastamentos decorrem de pressões que
afetam até a paz familiar dos envolvidos.
Defendeu
que é direito dos partidos que compõem o governo reivindicarem postos de
comando e que seu critério é nomear pessoas íntegras e competentes. Citou como
exemplo o ministro Paulo Sérgio Passos, que foi substituído por César Borges, e
depois o substituiu novamente.
William
Bonner não desistiu do tema. Chamou o PT de “partido que teve um grupo de elite
comprovadamente corrupto” tratado como “vítimas e guerreiros” e questionou se
isso não é ser “condescendente com a corrupção”. Neste momento, Dilma deixou
claro que não colocaria a carapuça nem em seu partido, nem nos dirigentes
condenados no processo do “mensalão”. Disse que é presidenta da República e que
não faria observações sobre nenhum julgamento do Supremo Tribunal Federal, que
a Constituição exige respeito a decisões do tribunal.
Bonner
clamava por uma crítica de Dilma ao PT. Por três vezes interrompeu-a: “Então a
senhora condena a postura do PT?”. “Enquanto for presidenta, não externarei
opinião sobre o julgamento. Não vou tomar posição que me ponha em conflito
(entre poderes)”, enfatizou, deixando no ar o entendimento de que a posição que
tem formada fatalmente seria de contrariedade.
O tema
corrupção ocupou mais de sete minutos, do total de 15 e meio que durou a
sabatina.
Em
seguida Patrícia Poeta afirmou a Dilma que “além da corrupção” a saúde também é
“um problema” do governo. E questionou se 12 anos de gestão do PT não teriam
sido suficientes para “colocar esse problema nos trilhos”, depois de reconhecer
que o governo “investiu muito” na área. Dilma admitiu que a área é de fato
muito carente e que o atendimento básico é um dos principais déficits da saúde
pública.
Lembrou
que o governo recorreu duas vezes a processos de seleção de médicos brasileiros
para atingir uma meta de contratar 14 mil profissionais para regiões desprovidas
de atendimento. Informou que só atingiu o recrutamento de 14.462 profissionais
para a atenção básica com o convênio com a Organização Pan-Americana de Saúde
(Opas) que trouxe os médicos cubanos ao país. “Segundo a Organização Mundial de
Saúde, esse contingente pode responder pelo atendimento de uma população de 50
milhões de pessoas”, afirmou.
“Mas a
senhora considera isso razoável”, insistiu a apresentadora. Dilma explicou que
a solução dos problemas na área da saúde pública exige uma reforma federativa,
que regule os papéis de estados e municípios e que seu programa prevê o
investimento na expansão das especialidades, depois de conseguir, com o Mais
Médicos, suprir a demanda por atendimento básico.
Em
seguida, Bonner entrou no quesito inflação, considerando elevados os 6,5% ao
ano, criticou a taxa negativa de 1,2% da economia no segundo trimestre e o fato
de o país ter registrado o “pior superávit” na balança comercial dos últimos 14
anos. Previu ainda um crescimento do PIB abaixo de 1% para 2014 e questionou:
“É justo ora culpar o pessimismo, ora culpar a crise internacional?”
A
presidenta assinalou que, de fato, o Brasil respondeu à crise internacional
pela primeira vez sem desempregar, sem arrochar salários e ainda reduzindo
impostos. “Mas a situação está ruim”, reforçou Bonner. Dilma rebateu que a
inflação não cresce desde abril, está próxima de zero e que há indicadores
importantes que permitem prever uma recuperação da economia no segundo
semestre. O apresentador “acusou” Dilma de otimista.
Com o
tempo esgotado, a entrevistada constantemente interrompida estourou em 30
segundos o total de 15 minutos. Reafirmou ter sido eleita para dar continuidade
aos avanços do governo Lula e para preparar o Brasil para um novo ciclo de
crescimento, moderno, mais inclusivo e mais competitivo. “Nós preparamos o
Brasil para dar um salto colocando a educação do centro de tudo.”
Rede Brasil Atual 18/08/2014 22:16, última
modificação 18/08/2014 23:31
Adaptado pelo blog
do SINPROCAPE - 19.08.2014 05h37m
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