DOUTRINA MAINARDI-FHC PREGA ÓDIO E DESMONTE
Tese do voto
inútil para o Brasil ganha campo; debate sobre planos de governo passam a não
interessar mais; o que importa é adiantar no 1º turno das eleições uma frente
em torno de Marina Silva contra o PT; "Passarei a torcer contra ela um dia
depois da posse", ensina colunista Diogo Mainardi; de Veneza, onde mora,
ele sinaliza apoio "até a posse"; depois, jogará na desestabilização;
ex-presidente Fernando Henrique aponta que fundamental é "não
melindrar" a candidata do PSB; ele trabalha para tornar o PSDB linha
auxiliar no eventual governo dela; movimento visa abater, na 2ª volta,
presidente Dilma Rousseff, mas primeira vítima é o tucano Aécio Neves; para
quem teve no avô Tancredo um mentor que dizia que a lealdade é a primeira regra
da política, mineiro tem agora outra lição, a da traição

Uma doutrina
política que prega o ódio ao PT, incentiva a instabilidade política e rebaixa o
nível do debate de propostas entre os candidatos a presidente da República
ganha campo nesta etapa da eleição. Batizada de Mainardi-FHC, tem no
ex-colunista da revista Veja Diogo Mainardi e no ex-presidente Fernando
Henrique seus principais garotos-propaganda. Complementares nos conceitos, eles
representam os extremos que balizam o arco de ideias da corrente em formação.
Trata-se, na
prática, de adiantar o caráter plebiscitário de um eventual segundo turno já
para esta primeira rodada da eleição. Na esteira do crescimento da candidata
Marina Silva, do PSB, a nova corrente defende o voto nela de imediato,
sacrificando o senador Aécio Neves, do PSDB. O que menos importa, nesta
orientação, é o debate de planos de governo dos candidatos ou a discussão sobre
falhas e realizações do governo que tem a presidente Dilma Rousseff como
candidata à reeleição.
Na baliza direita
da doutrina cuja execução está em pleno curso, cercada pelas condições
favoráveis de alta de Marina nas pesquisas, queda de Aécio e estabilidade de
Dilma a referência é Mainardi. Espécie de exilado da revista Veja em Veneza, na
Itália, ele perdeu a coluna que tinha na publicação do grupo Abril mas foi
abrigado com conforto pelo grupo Globo. Com intervenções no programa Manhatan
Conection, ele vai procurando nortear os que, como ele, perderam influência nos
últimos anos. E anda irritado.
DECLARAÇÃO
DE VOTO - Para
Mainardi, a missão de derrotar o PT do ex-presidente Lula, seu desafeto
pessoal, depois de 12 anos sem acesso às fontes do poder, admite o voto em uma
candidatura com a qual não se tem nenhuma concordância – à exceção do espaço
que essa chapa abre para a prática do ódio ao PT. É o que explica a declaração
de voto de Mainardi em Marina:
- Não espero
rigorosamente nada de seu governo e passarei a torcer contra ela um dia depois
da posse, registrou ele no texto intitulado 'Sou Marina (até a posse)'.
O fundamental, fica
claro, não é debater planos de governo, nem mesmo entre os que vão sendo
apresentados por Marina e o tucano Aécio Neves, com quem o pregador se
identificava até a ex-ministra entrar para a corrida presidencial na frente
dele nas pesquisas. O fundamental é vencer, mesmo que "um dia depois da
posse" a palavra de ordem já seja outra: fazer oposição à Marina. Os
riscos de instabilidade política embutidos na bandeira "Marina até a
posse" nem sequer são considerados pelo, digamos, analista. O que ele diz
da Itália, com todas as letras, é que considera como ideal para as eleições
brasileiras de 2014 a vitória de uma candidata à qual se começará a
desconstruir assim que chegar ao poder.
Antes de Mainardi,
o ex-presidente Fernando Henrique foi o primeiro a nortear o público anti-PT de
que Marina é, neste momento, a grande alternativa da oposição para recuperar,
mesmo que não totalmente, ao menos alguns nacos do poder perdido. "Não
quero que ela fique melindrada comigo", defendeu-se FHC, quando disse que
considerava, ao menos, que Aécio tinha mais experiência administrativa do que
ela. Àquela altura, porém, o ex-presidente já havia discorrido longamente sobre
a importância, para o PSDB, de não fazer oposição frontal à ex-ministra.
DURA
LIÇÃO - Foi o próprio Fernando Henrique que lançou Aécio para presidente, no
final de 2012. Agora, o ex-presidente também sai na frente na marcha de
esvaziamento da candidatura. O senador mineiro parece ter-se surpreendido com a
rapidez de ação de FHC. Antes mesmo que as pesquisas o colocassem, como agora,
atrás de Marina, Aécio já sofria com a habilidade dele. Agora, parece estar
confuso entre defender sua campanha, enfrentar Marina e tentar seu lugar no
segundo turno, ou arriar a bandeira e aderir à candidata do PSB, como insinua
Fernando Henrique.
Para quem teve no
avô Tancredo Neves um político que dizia que a lealdade é a regra número 1 da
política, Aécio deve ter levado um susto e tanto com o FHC que surgiu depois da
morte do ex-governador Eduardo Campos.
A orientação de
Fernando Henrique vai sendo seguida por setores cada vez mais expressivos entre
os tucanos. Depois que ele blindou Marina, a quem, repita-se, não quer
"melindrar", até o presidenciável tucano ficou confuso sobre qual
caminho seguir para voltar a ser ele, e não ela a alternativa oposicionista de
ida ao segundo turno.
Aécio ainda não
definiu se vai partir para o ataque a Marina ou se vai abrir passagem,
candidamente, para a passagem dela. Enquanto ele pensa, as pesquisas já o vão
levando para uma posição de distante terceiro lugar, numa perda de consistência
que seu partido não tem se esforçado para conter.
BRASIL 247 27 DE AGOSTO DE 2014 ÀS
13:55
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 28.08.2014 09h03m
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