MERVAL: “NÃO HÁ DESCULPAS” PARA CONTRADIÇÕES DE
MARINA SILVA
Colunista do Globo afirma que candidata do PSB tinha "obrigação de
se informar" sobre detalhes como doação de campanha "fora da
legislação" e uso de um "empreendimento que considera nocivo ao meio
ambiente", uma vez que ela foi contra a importação de pneus quando
ministra; segundo ele, "a 'nova política' que ela e Eduardo Campos
pregavam era transportada para cima e para baixo por um jatinho todo irregular"

O colunista do Globo Merval
Pereira afirma que "não há desculpas" para as contradições da
ex-ministra Marina Silva. Segundo ele, ao se juntar à campanha de Eduardo
Campos, ela "tinha a obrigação de se informar" de detalhes como o
recebimento de doações de campanha fora da legislação e do uso de um
empreendimento que considera nocivo ao meio ambiente. Agora, diz ele, "a
'nova política' que ela e Eduardo Campos pregavam era transportada para cima e
para baixo por um jatinho todo irregular". Leia seu artigo:
Contradições
O caso
do jato Cessna que vem dando dor de cabeça à direção do PSB por ser, ao que
tudo indica, produto de uma obscura transação que envolve laranjas e dinheiro
não contabilizado, trouxe para a herdeira política Marina Silva uma questão
adicional, que reforça as supostas contradições de sua candidatura.
Uma das
empresas envolvidas na compra do jato é a Bandeirantes Companhia de Pneus Ltda,
que importa pneus usados, negócio considerado como dos mais danosos ao
meio-ambiente. A autorização de importação de pneus usados, por sinal, foi uma
das muitas brigas que Marina travou à frente do ministério do Meio-Ambiente, e
perdeu.
Em
2003, foi convencida pelo então ministro da Casa Civil, José Dirceu, a recuar
em sua posição contrária à importação de pneus em nome de um "bem
maior", no caso a unidade do Mercosul. Isso por que, apesar de
oficialmente proibir a importação de pneus remodelados, o Brasil acata desde
2002 uma decisão do Tribunal Arbitral do Mercosul que obriga o país a aceitar a
entrada de pneus vindos do Uruguai.
Essa
posição provocou decisões judiciais que trouxeram para o país pneus usados dos
Estados Unidos e da União Européia. Marina sempre reclamou que a questão dos
pneus era tratada como puramente comercial, sem que fosse levado em conta seu
lado ambiental. Seu objetivo, dizia, era fazer com que o Brasil deixasse de ser
uma "lata de lixo global" para os pneus usados em outros países.
Sabe-se
agora que a então denominada Bandeirantes Renovação de Pneus foi beneficiada
por um decreto assinado em 2011 pelo governador Eduardo Campos, que ampliou
seus benefícios fiscais, eliminando limites de importação fixados anteriormente
por decreto do ex-governador e hoje deputado federal Mendonça Filho. Um dos
sócios da hoje denominada Bandeirantes Companhia de Pneus Ltda, Apolo Santana
Vieira, responde a processos de sonegação fiscal estimados em cerca de R$ 100
milhões devidos pela importação de pneus pelo porto de Suape, em Pernambuco.
Unindo-se
a natureza do empreendimento ao fato de que o uso do avião não fora ainda
declarado como doação de campanha eleitoral, com forte cheiro de caixa 2,
têm-se que a candidata Marina Silva está em uma situação no mínimo delicada. A
"nova política" que ela e Eduardo Campos pregavam era transportada
para cima e para baixo por um jatinho todo irregular, financiado em última
instância por uma atividade comercial que a ambientalista Marina Silva repudia.
E que recebeu estímulos fiscais de seu companheiro de luta política anos antes
de os dois se juntarem para tentar chegar ao Palácio do Planalto.
A essa
contradição da dupla anterior soma-se a atual, de ter como companheiro de chapa
o deputado Beto Albuquerque, que foi um dos líderes da aprovação do uso de
transgênicos no Congresso, derrotando a posição da então senadora Marina Silva.
Como a própria Marina explica agora, trabalhar com quem discorda de seus pontos
de vista mostra apenas que ela não é uma radical como a acusam, e que sabe
conviver com contrários.
No caso
de Beto Albuquerque é uma verdade, pois trata-se de um político correto que, ao
que se sabe, estava em defesa dos agricultores do Rio Grande do Sul no caso dos
transgênicos, e não em alguma transação nebulosa. Mas no caso da empresa de
pneus usados, não há desculpa para receber doações de campanha fora da
legislação e de um empreendimento que considera nocivo ao meio-ambiente.
Nem
mesmo dizer que não fora informada de nada. Ao se juntar à campanha de Eduardo
Campos, tinha a obrigação de se informar desses detalhes, justamente para não
se ver em uma situação delicada como agora. Outra aparente contradição, mas que
desta vez trabalha a seu favor, é a nota do Sindicato dos Trabalhadores e
Trabalhadoras Rurais de Xapuri (Acre), fundado por Chico Mendes, ligado à
Central Única dos Trabalhadores (CUT), que não gostou de ver Marina colocá-lo
como membro da "elite" brasileira, nem quer vê-lo classificado como
um "ambientalista", mas sim como "sindicalista".
O
sindicato também condena a política ambiental "idealizada pela candidata
Marina Silva enquanto Ministra do Meio Ambiente, refém de um modelo santuarista
e de grandes Ong's internacionais". Ora, os próprios termos do debate
mostram que a ex-seringueira Marina Silva saiu do Acre para ganhar uma dimensão
modernizadora, com uma visão mais ampla da disputa política e da própria defesa
do meio-ambiente.
BRASIL 247 29 DE AGOSTO DE 2014
ÀS 10:01
Adaptado
pelo Blog do SINPROCAPE 29.08.2014 11h25m
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