O QUE
RESTA À DIREITA LATINO-AMERICANA
Na
falta de projetos, ela se refugia em setores da mídia para formar cadeias que
resistem a transformações democráticas
por Emir Sader publicado 17/08/2014 09:52
A direita latino-americana já teve várias
fisionomias: economias primário-exportadoras e regimes políticos oligárquicos,
ditaduras e governos neoliberais. Nenhuma parece suficientemente atraente para
fazê-la voltar ao governo onde deixou de sê-lo. O modelo primário exportador
sofreu golpe mortal com a crise de 1929. As ditaduras serviram para brecar
avanços políticos das esquerdas surgidas ou fortalecidas na reação àquela
crise.
O projeto neoliberal parecia ser a boia de salvação
das forças mais retrógradas das sociedades latino-americanas, permitindo que a
direita trocasse de roupa, aparecendo como força “modernizadora”. Contra um
Estado qualificado como parasitário, pela livre circulação dos capitais que
supostamente permitiria reativar economias e promover o mercado e o grande
empresariado como os agentes mais dinâmicos da sociedade, surgia uma “nova
direita”.
Essa fisionomia foi ajudada pela adesão de forças
antes próximas ao campo popular. Partidos de origem nacionalista como o PRI
mexicano e o peronismo, social-democratas como a Ação Democrática da Venezuela,
o Partido Socialista do Chile, o PSDB no Brasil, entre outros, seguiram a
trilha dos partidos socialista da França e da Espanha, pioneiros a “aderir”. O
historiador Perry Anderson constatou em seu texto Balanço do Neoliberalismo que
não tinha havido um modelo tão abrangente como o neoliberal. Se ainda no começo
dos anos 1970 um conservador como Richard Nixon tinha afirmado “somos todos
keynesianos” – confessando a hegemonia do modelo conhecido pelo Estado indutor
do desenvolvimento e do bem-estar social –, não muito tempo depois até a
social-democracia internacional dizia o oposto: “Somos todos neoliberais”.
A esquerda histórica era desqualificada como
superada, marginalizada dos grandes movimentos da globalização. Políticos
oligárquicos eram reciclados para o liberalismo de mercado. Projetava-se o
século 21 como o século da nova direita.
O modelo, pujante no seu início, revelou no entanto
seus limites. As crises financeiras se multiplicaram – do México à Coreia do
Sul, do Brasil à Rússia, da Argentina à Grécia.Depois de ter sido o continente
que teve mais governos neoliberais e nas suas modalidades mais radicais – com
os de Pinochet no Chile (1973-1990) e Menem na Argentina (1990-2000) –, a
América Latina viu florescer governos antineoliberais. Esses governos ocuparam
lugares amplos no campo político, deslocando a direita tradicional, agora
associada à nova direita. Diante do pacto político na região de não aceitar
governos que se estabelecessem pela força, como tentou-se, sem sucesso, na Venezuela,
esse segmento teve de buscar outras vias e espaços.
Novos governos – Venezuela, Brasil, Argentina,
Uruguai, Bolívia, Equador – se consolidaram por atuar nos pontos mais frágeis
do neoliberalismo: promovendo a centralidade das políticas sociais no lugar da
dos ajustes fiscais. Recuperando o papel do Estado como indutor de crescimento
e de direitos sociais, no lugar da centralidade do mercado. Priorizando diálogo
regional em vez de tratados com os Estados Unidos.
A direita teve de se refugiar onde mantém espaços
de poder privilegiados – os meios de comunicação. Em situação monopolista, pelo
poder do dinheiro e pela articulação com lobbies internacionais, se criam
cadeias de formação antidemocrática da opinião pública, com poder de pressão
sobre governos. A direita consegue desgastá-los, mas não vencê-los eleitoralmente,
pois faltam-lhe plataforma, capacidade de projetar líderes e de conquistar
bases de apoio além de decadentes setores das classes médias.
Resta à direita latino-americana promover formas de
desestabilização, combinando campanhas terroristas na mídia, mobilizações de
setores que resistem às transformações democráticas e apoio internacional,
buscar brecar os impulsos desses governos e, eventualmente, ganhar eleições.
Essas formas de ação, já derrotadas em várias ocasiões na Bolívia, Equador e
Brasil, se concentram agora especialmente na Venezuela e na Argentina. Aí jogam
todas suas cartas.
A direita associada a meios de comunicação consegue desgastar, mas não vencer eleitoralmente, os governos progressistas. Faltam-lhe plataforma, líderes e bases de apoio além dos decadentes setores das classes médias
Emir Sader é sociólogo e cientista político brasileiro
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 24.08.2014 20h27m
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