Para sindicalistas, Plebiscito pela Reforma Política pode
corrigir distorções do financiamento de campanhas
Diz o velho ditado que quem paga a banda escolhe a
música. No atual modelo político brasileiro, que prevê a possibilidade de
grandes empresas fazerem doações para candidatos, a situação não parece ser
muito diferente. Antes do pleito, o dinheiro chega para bancar cartazes,
santinhos, cavaletes e militância paga. Depois, quando o assento no parlamento
já foi conquistado, “surgem” os projetos de lei que beneficiam aqueles que
viabilizaram a eleição. Para modificar este modelo, o “Plebiscito Popular por
uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político”, que acontece na
Semana da Pátria, em setembro, é visto como uma alternativa factível por
ativistas e sindicalistas.
Nesta quarta-feira (6), o Tribunal Superior Eleitoral
(TSE) divulgou a primeira prestação de contas parcial dos candidatos destas
eleições. O frigorífico JBS-Friboi, a construtora OAS e a Ambev são
responsáveis por 65% das doações computadas até o momento para as campanhas à
Presidência da República. Sozinha, a JBS doou R$5 milhões para as candidaturas
de Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), além de R$ 1 milhão para Eduardo
Campos (PSB). No Rio Grande do Sul, a situação é semelhante. Redes de supermercados,
construtoras e até planos de previdência já investiram quantias volumosas nos
projetos que disputam o Palácio Piratini.
Ativista defende financiamento público de
campanha
Idealizador do projeto Donos do Congresso, que reúne em
um site dados sobre doações de campanhas, o servidor público Dão Garcia
acredita que o atual modelo de financiamento eleitoral prejudica a democracia
brasileira. Os candidatos dificilmente seriam eleitos sem estes artifícios. No
entanto, conflitos de interesses surgem depois da votação. “Quem patrocina
cobra naturalmente um retorno em função da vantagem competitiva que
possibilitou. No final das contas, nosso Congresso Nacional é mais resultado da
ação dos financiadores do que das vontades do povo”, acredita.
Para ele, é um sistema que distorce a política, já que
todo empresário investiria em campanhas esperando algo em troca, que, no caso,
seriam a aprovação de determinadas leis e rejeição de outras. “A lógica do
investimento capitalista é a lógica do lucro. O imposto sobre grandes fortunas,
por exemplo, que está até previsto na Constituição, não é regulamentado por
isso. Em compensação, alterações no Código Florestal que expandem a fronteira
agrícola e beneficiam os latifundiários ocorrem com facilidade”, detalha.
Neste cenário, ele saúda a iniciativa dos movimentos
sociais ao propor um Plebiscito Popular por uma constituinte que defina um novo
sistema político. Para Dão, a ideia é mais interessante que uma reforma
política chamada pelo atual Congresso, que poderia ser uma “reforma de
maquiagem”. “A Reforma política é a mãe de todas as outras. É fundamental que
ela aconteça e implemente o financiamento público de campanha para que exista
uma igualdade de condições entre os candidatos, o que qualificaria nossa
representação”, defende.
“Não dá pra fazer campanha com dinheiro de
patrão”, diz sindicalista
Presidente da Federação dos Metalúrgicos da CUT do Rio
Grande do Sul, Jairo Carneiro conta que os 29 sindicatos que compõem a entidade
entraram em acordo e todos montarão comitês para a votação do Plebiscito
Popular, que acontece entre 1º e 7 de setembro. Mais do que a sede das
entidades, o objetivo é levar a votação para a porta das fábricas, onde
trabalham os cerca de 136 mil metalúrgicos vinculados à Federação.
O sindicalista explica que, no momento, a mobilização
ainda não é a ideal, pois em muitos locais a campanha salarial da categoria,
iniciada em maio, ainda continua. “Vamos nos dividir e fazer um operativo
semelhante ao de uma greve, indo de manhã cedo nas fábricas. É bom montar
pontos de votação nestes lugares, pois, diferente do estudante, que às vezes
pode participar no bairro, no centro, o peão fica mais dependente desta urna
próxima do local de trabalho. Também faremos um jornal todo focado no
plebiscito”, anuncia.
A meta entre os metalúrgicos é obter entre 40 e 60 mil
votos. “Vai depender da nossa mobilização, mas esse número é barbada, porque em
cada fábrica são 1000, 1500 trabalhadores”, imagina. E completa: “Nosso povo
gosta da ação direta, faz a greve, negocia, discute. Acho que vão abraçar esta
ideia também”.
Carneiro é outro que defende o financiamento público, bem
como o voto em lista e que os mandatos pertençam aos partidos políticos. “Não dá
pra fazer campanha com dinheiro de patrão. Temos que acabar com a picaretagem,
com essa história de que o sujeito se elege, não cumpre promessas, muda de
partido e segue com o seu mandato”.
Para ele, o atual modelo político impede a renovação da
classe política, pois aqueles que já ocupam cargos sempre estariam em vantagem.
“Se eu saísse da federação para concorrer, por exemplo, teria que ficar três ou
quatro meses sem salário.Eu iria viver de vento? Enquanto isso, um deputado se
candidata e continua recebendo seus vencimentos normalmente. Com o
financiamento público nós discutiríamos política em condições iguais”,
sustenta.
Mais do que isso, os trabalhadores como um todo estariam
sendo prejudicados pelas regras vigentes. A reivindicação histórica do movimento
sindical de jornada de trabalho de 40 horas semanais não sairia do papel
justamente por isso. “Os empresários ameaçam retirar o financiamento, daí não
acontece. Nossa pauta não avança por isso”, lamenta.
Por Caio Venâncio
Sul21 08/08/2014
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 09.08.2014 07h18m
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