ENTREVISTA OU INQUÉRITO?
Aécio Neves e Eduardo Campos, os primeiros entrevistados do JN, foram
meros coadjuvantes num espetáculo montado justamente para constranger Dilma num
cenário de suposta isenção
Por Ribamar Fonseca 20/08/2014
Quem assistiu à entrevista da
presidenta Dilma Rousseff no "Jornal Nacional", da TV Globo, na
segunda-feira, ficou em dúvida se ela estava realmente sendo entrevistada ou
acusada: os apresentadores William Bonner e Patrícia Poeta pareciam muito mais
inquisidores do que entrevistadores. Será que eles imaginaram que, com essa
postura, até certo ponto insolente (Patrícia chegou a colocar o dedo em riste
quase na cara da Presidenta), sugeririam isenção? Será que alguém é capaz de
imaginar que a Globo é isenta?
A
iniciativa de entrevistar os presidenciáveis, com o objetivo de oferecer mais
uma oportunidade ao eleitor para conhecer melhor os candidatos, seria uma
contribuição muito importante para a consolidação do processo democrático no
país se essa fosse realmente a intenção da emissora dos Marinho: o que eles
queriam, porém, era causar constrangimentos à Presidenta com perguntas que
pareceram mais peças acusatórias. Aécio Neves e Eduardo Campos, os primeiros
entrevistados, na verdade foram meros coadjuvantes num espetáculo montado
justamente para constranger Dilma num cenário de suposta isenção.
Ninguém
precisa ser muito inteligente para perceber a posição político-partidária da
chamada Grande Imprensa, da qual a Globo faz parte, em radical oposição ao
governo da presidenta Dilma Rousseff. A propósito, em recente artigo o
presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, lembra que "muitos se
esqueceram, outros nem souberam, mas a realidade é que a 'grande imprensa'
formulou com clareza um projeto de intervenção na vida política nacional".
E acrescenta: "Não é teoria conspiratória. Quem disse que os 'meios de
comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste País, já que a
oposição está profundamente fragilizada', foi a Associação Nacional de Jornais,
por meio de sua presidenta, uma das principais executivas do Grupo Folha".
Na
verdade, além do noticiário passional, que esconde o lado positivo do governo e
destaca os aspectos negativos, os grandes veículos utilizam todos os meios
possíveis para impedir a reeleição de Dilma, inclusive colunistas pouco afeitos
à democracia que se mostram saudosos da ditadura e pregam, semcerimoniosamente,
um golpe, ainda assombrados pelo velho fantasma do comunismo fora de moda. É o
caso, por exemplo, de Arnaldo Jabor, um misto de cineasta e colunista com cara
de maluco-beleza, que pertenceu à copa e cozinha de FHC e hoje faz parte da
operação destinada a apear o PT do poder. Em sua mais recente coluna ele admite
que as eleições presidenciais deste ano são "uma batalha entre democratas
e não democratas". Não parece difícil identificar os "não
democratas" entre os que pregam o golpe, até porque ele próprio se
confessa, nesse texto, entre os "alienados, os neoliberais, os
direitistas, os vendidos ao imperialismo".
Massacrado
pela Grande Mídia – o manchetômetro criado pelo Instituto de Estudos Sociais e
Políticos da Universidade do Rio de Janeiro revela em números a ação deletéria
dessa oposição desleal e desigual – o governo da presidenta Dilma Rousseff só
conta agora com o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, iniciado
nesta terça-feira, para restabelecer a verdade e levá-la ao conhecimento do
povão. Não será uma tarefa fácil, já que desde praticamente o segundo ano do
atual governo a Grande Imprensa vem fazendo a cabeça do eleitorado contra a sua
administração. Uma verdadeira lavagem cerebral. E, por conta disso, algumas
pessoas afirmam que não votam nela, mas não apresentam nenhuma razão.
Simplesmente dizem: "Não gosto dela".
Os
controladores da Grande Mídia tem consciência do estrago que já fizeram,
influenciando parte do eleitorado, mas ainda assim temem uma recuperação da
Presidenta, que vem revelando uma tendência de crescimento nas últimas
pesquisas de intenção de votos. Daí porque quase chegaram a festejar o trágico
acidente que matou Eduardo Campos e trouxe Marina Silva para a frente dos
holofotes, agarrando-se com unhas e dentes à ex-senadora acreana como tábua de
salvação, capaz de levar o pleito para o segundo turno e até derrotar a
candidata à reeleição. Eles apostam agora no fator Marina para catapultar Dilma
do Palácio do Planalto, mas esquecem do peso do fator Lula, que promete
decisiva atuação no horário eleitoral gratuito com inevitáveis repercussões em
favor da Presidenta. As próximas pesquisas, portanto, já deverão dar novas
indicações sobre os rumos da sucessão presidencial. É só uma questão de tempo.

Jornalista, membro da Academia Paraense de
Jornalismo e da Academia Paraense de Letras; tem 16 livros publicados
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 21.08.2014 07h54m
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