Antes de entrar no tema, um pedido de
desculpas. No artigo “O mito do cavaleiro solitário” atribuí a Marina Silva a
condenação das pesquisas com células tronco e o ensino exclusivo do
criacionismo nas escolas. Conferindo matérias da época, fica claro que em
nenhum momento Marina colocou suas convicções acima da liberdade de pesquisa da
ciência.
Agora, ao tema.
O episódio Malafaia é elucidativo
para entender dois pontos apontados aqui no Blog, sobre o programa e a
candidatura de Marina Silva.
O primeiro, a qualidade do programa
original da Rede Sustentabilidade.
Quem acompanha a série que escrevo
sobre o Brasil 2015 poderá conferir que a maioria absoluta dos conceitos
defendidos – e das críticas que faço à condução das políticas públicas - foi
contemplada no Programa do Sustentabilidade..
O segundo, a incapacidade de Marina
Silva de minimamente administrar conflitos. E, de certo modo, a falta de fôlego
da própria Rede para enfrentar o velho.
Dois episódios demonstram isso.
1. O caso do aprofundamento da
democracia participativa, uma das grandes bandeiras atuais. Bastou uma manchete
preconceituosa do Estadão para a Rede soltar uma nota informando que os
conceitos criticados pelo jornal constavam de um trabalho ainda não aprovado
pelos coordenadores do programa. O programa é divulgado e os conceitos continuam
lá.
2. O caso LGBT, ou com essa
fantástica frente modernizadora, esse centro do mais avançado pensamento das
ONGs paulistas, os centuriões da modernização foram botados para correr pelo
pastor Silas Malafaia.
Reverso de Lula
Não apenas isso.
No fundo, o programa da Rede
Sustentabilidade é um tentativa de reengenharia no modelo lulista.
Lula compôs com o mercado financeiro
para viabilizar suas políticas sociais; o programa de Marina pretende compor
com os movimentos sociais para viabilizar sua política econômico-financeira.
No período Lula-Dilma, com todas as
concessões, o ponto central foram as políticas sociais; no programa da Rede,
pelo contrário, é o mercado financeiro (explico logo adiante).
Há agravantes nessa estratégia.
Os tempos são outros, não há
crescimento nem espaço fiscal para atender a todas as demandas. O próximo
governante terá que administrar a escassez. E aí o programa da Rede não passa
no teste de consistência:
1. Os novos tempos exigem o
aprofundamento da democracia social e do Estado de bem estar. Aumenta o
custo dos salários e exige um novo desenho econômico para preservar a
capacidade da economia em gerar empregos de melhor valor.
2. O novo modelo só se sustenta com
um salto na qualidade do emprego e das empresas. Exige uma nova política
industrial, casada com planos de inovação, educação, visando garantir a oferta
de empregos de maior valor agregado.
3. Definidos os dois passos
anteriores, a macroeconomia precisa ser adaptada aos novos tempos. Ou seja, ela
é a derivada. No programa do Sustentabilidade, juros e parte fiscal são o
fator dominante.
Para mostrar melhor as
incongruências, compararei o programa da Rede com o que está sendo elaborado
por um conjunto de especialistas - macroeconomistas, economistas sociais,
urbanistas etc - ligados ao chamado novo pensamento desenvolvimentista.
Primeiro movimento: a democracia
social
Nos dois casos, há grande semelhança
das ideias levantadas - pelo fato de que estão rodando por aí, na cabeça de
especialistas, da academia, das ONGs.
Grosso modo, podem ser divididos nos
seguintes subtemas:
1. Temas ligados à qualidade de
vida.,
2. Temas ligadas ao federalismo.
3. Temas ligados ao aprofundamento da
democracia social.
4. Micro-reformas desburocratizantes.
Quase todas as ideias significam
melhorias incrementais em relação à dinâmica das políticas sociais já
existentes.
É o que explica o belíssimo capítulo
do programa da Rede sobre a inclusão de crianças com deficiência na rede
escolar, belíssimo nos conceitos mas ignorando uma realidade concreta, uma das
mais bem sucedidas políticas públicas do país: 800 mil crianças com deficiência
sendo atendidas na rede escolar, com transporte, salas especiais, planos de
trabalho individualizados. Ou a proposta de ensino em período integral
ignorando que já existem 4 milhões de crianças nessas condições.
Todo esse trabalho foi possível
porque tanto o governo Lula como Dilma garantiu espaço no orçamento público. É
aí que se dão os grandes embates políticos, com corporações, mercados e grupos
sociais querendo, cada qual, seu pedaço do bolo.
Segundo movimento: a reestruturação
econômica
Nesse capítulo, a lógica mercadista
se apresenta em toda sua exuberância.
O trabalho dos desenvolvimentistas
procura identificar novos setores dinâmicos e defender políticas de
fortalecimento com uso de política de compras, conteúdo nacional, investimento
em inovação, educação, financiamento etc. E o pré-sal é o ponto central dessa
reestruturação.
O pré-sal some do programa da Rede.
Em relação aos combustíveis fósseis, a única menção é à necessidade de reduzir
sua utilização por questões ambientais.
No capítulo energia, o programa
perde-se em análises recorrentes sobre o novo modelo elétrico e na defesa
sonhática de formas alternativas de energia, como se a energia solar e a eólica
pudessem dar conta do recado de garantir energia para as próximas décadas.
Políticas de conteúdo nacional não se
limitam meramente a assegurar um percentual de produtos nas compras públicas.
São o ponto de partida para programas de capacitação, envolvendo a cadeia
produtiva, universidades, atração de tecnologia externa, treinamento, cursos
técnicos. São peças essenciais para permitir saltos de qualidade na cadeia
produtiva.
O programa da Rede limita-se a
aceitar os programas de conteúdo nacional existentes, "desde que com data
marcada para terminar". A ideia central continua sendo a de abrir o país
para a competição externa, como se a invasão de importados e a queda da indústria
decorressem da falta de competição.
Terceiro movimento: a política macroeconômica
É aí que se revela amplamente a
política econômica da Rede.
Ampliação dos direitos sociais,
reestruturação industrial, tudo isso depende de recursos orçamentários.
Um projeto político voltado
efetivamente para o aprofundamento da democracia social e para a reestruturação
econômica, não poderia conviver com dois vícios recorrentes que comprometem o
orçamento público:
1. A política
de metas inflacionarias que cria o pior dos mundos para o orçamento público.
Cada aumento da inflação dispara uma alta dos juros que, por sua vez,
compromete parcelas cada vez maior do orçamento público, além de destruir a
política cambial.
2. Para
garantir o espaço para a apropriação do orçamento pelos juros, definem-se metas
de superávit fiscal incompatíveis com períodos de estagnação econômica.
Não difere do que vem sendo praticado
por sucessivos governos, e agravado nos últimos anos pelos problemas de gestão
econômica de uma equipe medíocre, mantida pela teimosia de Dilma..
Um upgrade do governo Dilma exigiria
uma mudança corajosa nesse modelo do tripé econômico, definindo um combate
radical às heranças remanescentes da inflação inercial, substituindo as metas
inflacionarias por outras formas de articulação das expectativas e,
principalmente, desatrelando a dívida pública da política monetária do Banco
Central.
É mais fácil essa mudança ocorrer com
Dilma do que com Marina. Dilma abraça o tripé por não dispor de uma equipe com
fôlego para propor políticas alternativas. Já no grupo de Marina, o tripé é
sagrado.
Conclusão
O programa é relevante – seria mais
não fossem os recuos inacreditáveis – por levantar temas dos novos tempos,
conceitos contemporâneos, principalmente partindo de organizações sociais que
promovem um arejamento no pensamento anacrônico da chamada elite empresarial.
Mas é evidente que o resultado final
não é a ruptura com dogmas que seguram a transição para os novos tempos. Pelo
contrário: reforçam a submissão do país a um modelo econômico que se esgotou
globalmente.
GGN 30/08/2014 - 21:22 atualizado em 31/08/2014 - 12:26
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 31.08.2014 16h33m
Nenhum comentário:
Postar um comentário