PARA ENFRENTAR A CRISE
PROGRAMA DE PROTEÇÃO AO
EMPREGO DEVE TER IMPACTO POSITIVO NAS CONTAS DO GOVERNO
Mesmo com aplicação de recursos do FAT para complementação
salarial, programa mantém arrecadações do INSS, FGTS e Imposto de Renda. Já
economista vê governo "no fio da navalha"
O Programa de Proteção ao Emprego
(PPE), lançado na segunda-feira (6) pela presidenta Dilma Rousseff para reduzir
o impacto do ajuste fiscal no mercado de trabalho e evitar demissões, deverá
ter saldo positivo nas contas do governo, apesar dos recursos do Fundo de
Amparo ao Trabalhador (FAT) serem destinados à complementação salarial dos
trabalhadores de empresas que aderirem ao modelo. Ao evitar demissões, o PPE
mantém a arrecadação do INSS, FGTS e Imposto de Renda – na ponta do lápis, o
saldo deve ser positivo.
O PPE
reduz a jornada de trabalho e o salário em até 30% durante período de seis
meses, prorrogável por até mais seis. Durante esse tempo, o trabalhador não
pode ser demitido e o saldo do FGTS permanece preservado, assim como todos os
seus direitos trabalhistas. Além disso, o trabalhador que estiver inserido no
programa, terá estabilidade quando de seu término: para duração de seis meses,
dois meses de estabilidade e para duração de um ano, quatro meses.
O teto
para a redução de jornada e de salário é de até 30%, definido por meio de
acordo coletivo, negociado com o sindicato da categoria. Porém, o FAT
complementa 50% desse percentual. Por exemplo, se o acordo foi fechado para a
redução de salário de 30%, 15% serão subsidiados pelo FAT. Portanto, o
trabalhador receberia 85% do seu salário.
Apesar da
alocação de recursos do FAT, a medida é favorável às contas do governo. Uma
simulação da aplicação do programa para evitar 50 mil demissões de
trabalhadores com salário de R$ 2.500, por exemplo, mostra que o governo
gastará R$ 112,5 milhões durante seis meses com o PPE, mas arrecadará R$ 181,3
milhões de contribuição previdenciária e não terá o gasto de R$ 291 milhões de
seguro-desemprego no período.
“O PPE não institui e nem retira direitos, é uma medida temporária
de contenção de crise”, ressalta o secretário-geral da CUT Sérgio Nobre.
Segundo o dirigente, para ter acesso ao programa as empresas precisam
demonstrar que esgotaram todas as alternativas possíveis de manutenção de
empregos. “Faremos um amplo debate com as bases sobre o programa. A CUT, o
Dieese e as demais centrais estão empenhadas em promover seminários e encontros para aprofundar o tema.”
O
programa funciona para qualquer empresa, menos para os servidores públicos,
porque já possuem estabilidade. A redução é opcional e, para que a empresa
possa adotá-la, precisa justificar ao governo por qual dificuldade está
passando e porque gostaria de adotar o sistema. Uma vez aprovado, não só o
sindicato precisa estar de acordo, mas também os trabalhadores, que deverão
aprovar ou não a adoção da proposta em assembleia.
Segundo Nobre, entre as medidas que existem por lei para evitar o
desemprego durante a crise, o PPE é a que menos prejudica o trabalhador, se
comparado, por exemplo, ao lay
off, medida que tem sido adotada por várias indústrias, mas que tem
resultado em demissões e falta de assistência ao trabalhador após o
desligamento. “Entendemos o PPE como uma alternativa experimental contra o
desemprego e, durante o período que vigorar a MP, nossa obrigação é analisar e
avaliar os efeitos do programa, levando esse debate aos sindicatos, discutindo
todos os instrumentos possíveis para preservar o direito básico do trabalhador que
é o emprego”, avalia o dirigente.
Já o economista Claudio Dedecca, professor da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), disse hoje (8) em entrevista à Radio
Brasil Atual que
está surpreso e assustado com o anúncio do programa. “É que o governo não sinalizava
nessa direção. Não reconhecia que o ajuste econômico começava a provocar uma
deterioração no mercado de trabalho, apenas uma perda na renda”, afirmou. “O
que me assusta e é estranho é a tomada de medidas sem uma discussão com a
sociedade, de modo completamente inesperado, inclusive um conjunto de medidas
que sinaliza muito pouca articulação no interior do próprio governo. O
Ministério do Trabalho praticamente não participou da definição dessas medidas.
Elas foram tomadas muito mais no âmbito da Casa Civil e da área econômica,
incluindo o Planejamento”.
Para
Dedecca, o governo deveria ter discutido os rumos da economia a partir de 2012,
quando existiam amplos sinais de que o crescimento baseado no consumo havia se
esgotado. Era necessário estruturar um bloco de investimentos que tivesse o
emprego como um dos elementos da sua organização: “O governo não fez isso, foi
empurrando um crescimento que perdia vigor a partir de 2012, de tal modo que
após a eleição o governo adota essas medidas sem uma estratégia, sem um
conhecimento de como elas se articulam em um conjunto mais amplo de medidas
para a recuperação da economia, num espaço de tempo mais curto possível”.
O economista reitera que o governo precisaria ter uma estratégia
para recuperar a atividade econômica e com medidas orientadas para o emprego.
"O governo anda hoje no fio da navalha, porque adotou um ajuste fiscal
também sem muita clareza sobre qual objetivo e quais seriam os resultados. Esse
ajuste vem provocando uma deterioração dos salários e agora do emprego e o
governo toma uma medida desesperada de buscar preservar de algum modo o
emprego, o que é contraditório com a decisão de reduzir o seguro-desemprego,
com o objetivo de buscar o equilíbrio fiscal do FAT, que foi inclusive objeto
de aprovação pelo Congresso. Ao se olhar as iniciativas, se percebe que o
governo está correndo atrás do prejuízo. Sem um planejamento de maior
prazo", afirmou.
Fonte: REDE BRASIL ATUAL 08 de julho 2015 13h20m
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 08.07.2015 15h54m
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