UM DOMINGO DE ELEIÇÃO SOB A
NÉVOA DO ATENTADO À DEMOCRACIA
Globo iguala seus piores momentos ao apresentar
falsa denúncia contra Dilma na véspera da eleição e Aécio aceita tranquilamente
uma mão da antidemocracia para chegar ao poder. Vitória da presidenta será
derrota inigualável para mídia tradicional
O segundo turno mais longo da
história chega a seus últimos momentos com o fim de semana mais longo da
história. Quase 140 milhões de brasileiros vão às urnas hoje com a cabeça ali
na frente. Hoje à noite, por volta de 20h, começaremos a ter certeza de qual futuro
temos por adiante nos próximos quatro anos. Uma tensão que não é a tensão
corriqueira de uma disputa eleitoral: caminhamos, desta vez, sob a névoa do
atentado à democracia cometido de véspera pela Rede Globo. Temos o acúmulo de
113 dias de uma disputa surpreendente, agressiva, de baixo nível. Temos o
cansaço pela má qualidade do debate político travado ao longo dos últimos 12
anos, particularmente em 2014.
Em 2010
esperamos que a mídia tradicional disparasse contra Dilma uma bala de prata que
não veio, talvez pelo cálculo de que o desgaste para a reputação seria
definitivo. Mas, passados quatro anos, o aumento do ódio, o descolamento entre
jornalismo e realidade e a vantagem mais estreita entre a petista e seu
adversário levaram a que se buscasse uma última cartada. A exibição pelo Jornal
Nacional de uma denúncia trazida por uma revista ilegítima do ponto de vista da
credibilidade, a partir de informações sabidamente inverídicas, não pode chegar
a nos surpreender.
É a
Globo, mais uma vez, tentando interferir na vontade eleitoral. Como fez, sem
sucesso, nas últimas três ocasiões, e como fez, com sucesso, em 1989, quando
elegeu para a presidência um Fernando Collor que logo se mostrou incapaz de
segurar o pepino e acabou defenestrado. No ano passado, a família Marinho
admitiu que se colocou do lado errado ao apoiar e ser base de sustentação da
ditadura.
O passar
do tempo confirma o que todos que acompanhamos a questão já sabíamos:
arrependimento, uma ova – para usar a vovozista expressão ressuscitada nessas
eleições. A Globo se lançou em uma empreitada arriscada para quem deve R$ 680
milhões à Receita Federal e vê sua audiência cair dia após dia, quase no mesmo
ritmo de queda de sua credibilidade.
A reportagem, que a um primeiro olhar pode soar equilibrada, tem
alguns agravantes que precisam ser levados em conta. Primeiro, sua duração, de
seis minutos, incomum para o padrão Globo de jornalismo, sempre tão
comprometido com a superficialidade da informação. Depois, por se valer de um
pretexto para levar a “denúncia” da revista Veja ao ar: o “ataque” à sede do Grupo
Abril, na zona oeste de São Paulo, serviu como mote para dizer que Dilma
Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva sabiam de um esquema de corrupção na
Petrobras. Lá pelas tantas na reportagem surge a figura de Aécio Neves, que,
também sob a desculpa de condenar a repressão, ganha mais alguns preciosos
segundos para lançar seu discurso moralista e atacar o PT e a presidenta. Oras,
o que fazia o tucano numa matéria a respeito de um tema com o qual não tem qualquer
ligação?
Não perca a conta. Em quarto lugar, quando o Jornal Nacional levou
ao ar o conteúdo, já havia decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que
apontava na reportagem de Veja o uso de conteúdo inverídico, trazido
à tona com clara intenção de manipular a disputa eleitoral. A sentença do
ministro Admar Gonzaga, que concedeu direito de resposta a Dilma, foi apenas
breve menção ao final dos seis minutos de exposição negativa para a presidenta.
Para finalizar a lista de agravantes, observe-se o momento em que o caso foi ao
ar: no sábado à noite, quando já se conhecia a denúncia desde a véspera, para
que a petista tivesse tempo de obter direito de resposta ou pudesse se valer do
debate na própria Globo para peitar a corporação.
A emissora dos Marinho mostra
que, entre seu passado de apoio à repressão e seu recente presente de
arrependimento, abraça alegremente o primeiro. Conta, para isso, com o também
previsível apoio de Aécio, que encarna melhor que seus antecessores na disputa,
José Serra e Geraldo Alckmin, o papel do
vamos-tirar-o-PT-do-poder-a-qualquer-custo.
O senador
mineiro evidencia que não se importa se sua vitória será conquistada com a
apresentação de propostas ou com uma manipulação acintosa. Se não conseguiu,
mediante suas ideias, estar à frente de Dilma na véspera da votação, aceita
tranquilamente uma mãozinha que tente lhe empurrar ao Palácio do Planalto.
Se triunfar em sua estratégia, terá nos manuais de história
brasileiros uma vitória marcada com asterisco, um campeonato vencido no
tapetão. A honra e a ética, valores que jura defender, passaram longe quando
encampou a estratégia de Veja,
distribuída país afora como material de campanha, no último episódio de uma
eleição absolutamente lamentável. Aécio sabe que, se sair vencedor, não será
pelos valores meritocráticos que tanto ressalta, mas pelo aparelhamento
midiático que nunca quis admitir.
Por outro lado, a vitória de
Dilma representará uma derrota inesquecível para uma mídia tradicional que
nunca esteve tão unida no intento de derrubar o partido há 12 anos chegado ao
Planalto. Será difícil continuar a fingir neutralidade e imparcialidade depois
de tantos episódios lamentáveis, com uma cereja do bolo que a tudo faz
desmoronar. Aécio será a cabeça de um fracasso retumbante, de uma resposta
popular a um abuso autoritário cometido sob o manto da democracia.
Vencedora,
Dilma terá de pensar se tem estômago para fazer as pazes com esta mídia ou se
tomará atitude completamente diferente, batalhando pela democratização da
comunicação e mudando a distribuição de verbas de publicidade oficial para
deixar de legitimar veículos que, aos olhos da democracia, tornam-se ilegítimos.
REDE BRASIL ATUAL 26 de outubro de 2014 11:04
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 26.10.2014 15h41m
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