O QUE SIGNIFICA A AMPLIAÇÃO DA PRESENÇA CHINESA NO BRASIL
A visita ao Brasil do
primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, com a intenção de investir cerca de 53
bilhões de dólares no país eleva as relações entre Brasília e Pequim a um novo
patamar e pode ampliar a presença dos chineses no país.
Antes centrada na compra de commodities brasileiras
e na pequena participação de empresas chinesas na exploração do megacampo de
petróleo Libra, no pré-sal, agora os chineses pretendem investir de forma maciça
em infraestrutura: ferrovias, portos, aeroportos, rodovias e hidrelétricas.
Ainda não
está claro como o investimento “estratosférico”, nas palavras de José Alfredo
Graça Lima, subsecretário-geral do Itamaraty, será realizado. Mas é provável
que seja por meio da compra de participação em negócios nos futuros leilões de
concessão de infraestrutura, a serem divulgados pela presidente Dilma Rousseff
no início de junho, ou por meio de financiamentos de bancos chineses a obras do
tipo.
“O
gigantismo comercial da China, que há dois anos se converteu na maior
exportadora e importadora do mundo, não se fez acompanhar do papel do país como
grande fonte de investimentos estrangeiros diretos”, afirma Marcos Troyjo,
diretor do BricLab da Universidade de Columbia. Agora o país estaria buscando
compensar essa lacuna.
O anúncio
de investimentos no Brasil segue na esteira da concretização do plano da China
de elevar os investimentos na América Latina para 250 bilhões de dólares na
próxima década. A promessa havia sido feita pelo presidente chinês, Xi Jiping,
num discurso em janeiro aos chefes de Estado e governo dos países-membros da
Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac).
Investimento
bem-vindo
O
dinheiro chinês chega num momento em que o Brasil implementa diversos cortes no
orçamento e no investimento em infraestrutura. Segundo Márcio Sette Fortes,
professor de relações internacionais do Ibmec/RJ e ex-diretor da Câmara de
Comércio Brasil-China, esse dinheiro é essencial para contribuir com o reaquecimento
da economia.
“O Custo
Brasil tem a chance de diminuir com a presença maciça do capital chinês. Isso
não melhora a tributação ou diminui a corrupção, mas contribui para reduzir
custos logísticos e de infraestrutura precária,” afirma.
Li e a
presidente Dilma deverão assinar em Brasília cerca de 30 acordos, entre eles
diversas parcerias de investimentos e a ampliação do comércio entre os dois
países.
Entre um
dos projetos possíveis está a construção da ferrovia Transoceânica, que deve
ligar o Porto do Açu, no Rio de Janeiro, ao Porto de Ilo, na costa do Peru. O
corredor de trilhos entre os oceanos Atlântico e Pacífico vai abrir uma saída
para os produtos brasileiros como grãos e carnes para o Pacífico, sem que a
carga precise passar pelo Canal do Panamá. O objetivo é tornar as mercadorias
mais competitivas e com um menor custo também para a China.
A
proposta gera polêmica por conta do elevado custo da construção, que passará
pela Cordilheira dos Andes, e pelo impacto ambiental, já que a linha férrea teria
que passar pela região amazônica brasileira e peruana. Segundo Graça Lima, a
ferrovia deverá ficar pronta entre três e quatro anos. O valor ainda não foi
calculado, mas há estimativas de que a conexão, de cerca de 5,3 mil
quilômetros, chegue a custar cerca de 10 bilhões de dólares.
A nova fase da parceria
bilateral terá deve aumentar a presença de empresas chinesas no país, de olho
no potencial do mercado brasileiro. Exemplos recentes são as montadoras Chery,
que inaugurou uma fábrica no Estado de São Paulo em 2014, e JAC Motors, que
inaugurará uma fábrica na Bahia em 2016. A China vê no Brasil também uma
plataforma de exportação para outros países latino-americanos.
Para Ana
Soliz de Stange, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), em
Hamburgo, o Brasil e os países vizinhos ganham com o desenvolvimento de
projetos de infraestrutura que antes eram postergados. Mas também há risco de
um desfecho negativo.
“Vai
depender da maneira como o Brasil e os outros países vão negociar cada um dos projetos:
se a mão de obra será latino-americana ou chinesa, se eles vão se comprometer a
respeitar as leis trabalhistas e se, em projetos como a ferrovia Transoceânica,
o controle e a administração serão mantidos, majoritariamente, nas mãos dos
governos latino-americanos”, afirma Stange.
Uma das
parcerias a ser assinada nesta terça-feira (19/05) deverá concretizar a venda
de 22 aviões da Embraer a duas empresas aéreas chinesas, como parte dos 60
jatos já negociados no ano passado, durante a visita de Xi Jinping. Outro
anúncio deverá ser a abertura do mercado da China à carne bovina brasileira,
restrito desde o final de 2012, quando foi registrado no Brasil um caso atípico
do chamado “mal da vaca louca”.
Desde
2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2014, as trocas
comerciais totalizaram 77,9 bilhões de dólares, e o Brasil obteve superávit de
3,3 bilhões de dólares. Esta é a segunda vez que um alto líder chinês vai à
região em menos de um ano, depois da visita do presidente chinês ao Brasil, à
Argentina, Venezuela e Cuba.
Destino:
América do Sul
Depois da
visita ao Brasil, o primeiro-ministro chinês e a sua comitiva de 120
empresários seguirão para Colômbia, Peru e Chile – países que fazem parte da
Aliança do Pacífico, bloco econômico que também desperta interesse da China por
oferecer boas oportunidades de negócios e investimentos para o gigante
asiático.
Em
Bogotá, Li deverá firmar convênios para intensificar a cooperação em
investimentos, infraestrutura, agricultura e comunicações. Em Lima, o ponto
principal será a ferrovia Transoceânica e dezenas de acordos em setores como
energia e agricultura. Na última parada, Chile, país que detém um acordo de
livre-comércio com Pequim desde 2005, Li deve aprofundar as conversas para
fechar tratados nas áreas de energia solar e eólica.
DCM 20 de maio de 2015
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 20.05.2015 21h50m
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