FGTS é usado na compra de equipamentos para a União
O governo está usando
dinheiro do FGTS para comprar computadores, impressoras e outros equipamentos
de informática - bens que passam a fazer parte do patrimônio da União, no
Ministério do Trabalho. Isso era proibido, mas, em 2007, o próprio ministério,
que preside o Conselho Curador do Fundo, revogou parecer anterior, abrindo
brecha para esse tipo de gasto. Diante da resistência de alguns conselheiros,
os repasses só começaram em 2010. Em dezembro do ano passado, a pasta fez uma
licitação para adquirir 2.700 equipamentos, no valor total de R$ 8,882 milhões,
e na última quarta-feira, o Conselho Curador, sem o voto dos representantes dos
empregadores, aprovou a liberação de mais R$ 12 milhões para o chamado
"aperfeiçoamento tecnológico", o que inclui a construção de salas de
videoconferência.
A Lei 8.036/90, que trata do FGTS, diz apenas que cabe ao Conselho
Curador fixar critérios e um valor para remunerar as atividade dos fiscais do
trabalho, com vistas a aumentar arrecadação do Fundo. Com base nisso, desde
2001, o Fundo vem repassando dinheiro para a área de fiscalização do
ministério, no montante correspondente a 1% sobre o valor recolhido no ano
anterior. Até 2007, a verba era usada exclusivamente em ações de treinamento e
capacitação dos auditores, pois o concurso para ingresso na carreira não exige
formação superior específica.
R$
15,6 milhões gastos nos últimos três anos
Representantes do Conselho Curador criticam o uso dos recursos para
equipar o Ministério do Trabalho, sob alegação de que o FGTS é um Fundo
privado, pertencente aos trabalhadores. Argumentam ainda que patrimônio público
deve ser financiado com orçamento da União. Apesar disso, os repasses continuam
sendo feitos porque o governo tem maioria no Conselho Curador. Nos últimos três
anos, foram gastos cerca de R$ 15,6 milhões com a rubrica, de acordo com dados
do Conselho.
- Nós entendemos que não é função do FGTS dar presentes à União - disse
o conselheiro Luigi Nese, da Confederação Nacional de Serviços (CNS), que faz
parte da bancada dos empregadores e se absteve de votar a favor da medida na
última reunião do Conselho Curador.
- O FGTS está financiando a compra de patrimônio público. Isso é, no
mínimo, antiético - reforçou um conselheiro que prefere não se identificar.
Segundo Luigi Nese, o parecer da consultoria jurídica do ministério não
pode ser visto como uma decisão judicial, mas como uma interpretação que
precisa ser reavaliada. Ele destacou que o governo está em fase final de
implantação do E-Social, sistema que vai concentrar todas as informações das
empresas e vai permitir reduzir fraudes e aumentar a arrecadação de todos os
impostos e contribuições.
O Ministério do Trabalho não vê qualquer ilegalidade na iniciativa, sob
o argumento de que a legislação que trata do FGTS assegura uma remuneração às
ações de fiscalização, além do parecer da consultoria jurídica da própria
pasta.
- Há uma base legal nisso. Somos remunerados pelo que fazemos e
prestamos contas aos órgãos de controle - disse o coordenador-geral de
Fiscalização do Trabalho, Luiz Henrique Lopes.
Segundo Lopes, os recursos têm ajudado a melhorar a arrecadação do FGTS,
que subiu de R$ 1,664 bilhão para R$ 2,371 bilhões nos últimos dois anos, com
alta de 42,49%. Ele afirmou que os equipamentos comprados com recursos do Fundo
são utilizados exclusivamente nas ações de fiscalização e para equipar as 27
unidades da pasta espalhadas pelo país. Mas, o último edital de licitação da
compra dos produtos de informática não deixa isso claro, como também não
detalha a fonte de recursos para a aquisição dos bens.
Lopes justificou ainda que o FGTS remunera a Procuradoria-Geral da
Fazenda Nacional (PGFN) para cobrar débitos inscritos em dívida ativa e a Caixa
Econômica Federal, que é a operadora dos recursos do Fundo. Mas, segundo conselheiros,
a PGFN é apenas ressarcida pelos gastos, dentro de critérios fixos, e isso não
inclui o uso dos recursos para a compra de equipamentos. O reembolso para
compra de livros, por exemplo, foi recusado.
- Já a Caixa é o agente financeiro e não pode ser comparada ao
Ministério do Trabalho - disse um representante do Conselho.
Recursos
para o minha casa, minha vida
De acordo com dados do ministério, a folha dos 2.700 auditores, que
custa R$ 45 milhões, é paga pelo orçamento da União. Além disso, todo o sistema
do FGTS já é mantido pelo Serpro.
Os conselheiros contrários ao repasse de verba para compra de produtos
eletrônicos lembram ainda que o governo tem usado cada vez mais os recursos do
Fundo para fazer política social, com o Minha Casa, Minha Vida. As famílias
beneficiadas ganham um desconto no valor do imóvel e esse dinheiro não tem
volta, disse uma fonte. Mas, nesse caso, é compreensível, porque o FGTS tem
como função social investir em habitação e moradia.
O Globo 24/03/2014
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 24.03.2014 08h46m
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