QUEM SÃO OS PERSONAGENS DO
TUMULTO QUE SUSPENDEU SESSÃO DO CONGRESSO
Deputados, ex-servidores, profissionais liberais e
até uma procuradora integram grupo que insultou parlamentares e tumultuou
sessão. Governistas acusam DEM e PSDB de articular entrada de manifestantes
por Hylda Cavalcanti
Concentração de pessoas para
protestar ou pedir pela aprovação de projetos de lei é um gesto saudável para a
democracia. Mas a forma como o Congresso Nacional ficou fragilizado durante a
sessão de ontem (2) diante de embate iniciado por duas dezenas de pessoas
chamou a atenção de políticos, integrantes do Executivo e líderes partidários.
Passadas algumas horas, alguns dos principais personagens da confusão que levou
cidadãos a receberem choques, apanharem da polícia e parlamentares a serem
ofendidos, insultarem-se uns aos outros e a se atracarem com servidores do
Legislativo foram identificados.
Além de
professores, procuradores e economistas ligados ao DEM e ao PSDB, a
manifestação, segundo parlamentares da base aliada, foi articulada pelo
deputado Izalci Lucas (PSDB-DF), com o apoio dos também deputados Ronaldo
Caiado (DEM-GO) e Ônix Lorenzoni (DEM-RS). A reportagem tentou, sem sucesso,
ouvir os parlamentares. Eles teriam feito convites em redes sociais, reforçaram
contatos entre correligionários em seus estados e hoje contaram com o suporte
de convidados como o cantor Lobão e a ex-diretora da Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac) Denise Abreu. Ela, que está em Brasília desde ontem, faz
atualmente oposição ao governo e foi pré-candidata à presidência da República
pelo PEN na última eleição, legenda que acabou compondo a coligação do
candidato derrotado Aécio Neves (PSDB).
Do grupo
que chamou a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-PA) de “vagabunda” no episódio
que levou à suspensão da sessão parlamentar marcada para apreciar o projeto
referente à mudança no superávit, dentro da Lei de Diretrizes Orçamentárias
(LDO), várias pessoas foram identificadas. Segundo o presidente do Senado,
Renan Calheiros (PMDB-AL), foram contabilizadas 26 pessoas nas galerias no
momento do tumulto. De acordo com parlamentares da oposição, o número chegou a
perto de 50.
Destacaram-se,
dentre eles, o professor de história Alexandre Seltz, de Goiás, o economista
Adolfo Sachs e a procuradora do Distrito Federal Beatriz Kicis Torrents de
Sord, que foram reconhecidos hoje por colegas e servidores da Câmara dos
Deputados e do Senado. Seltz contou que foi à capital do país, juntamente com
amigos, levado por Ronaldo Caiado (DEM-GO). Já Sachs mora em Brasília, é um dos
integrantes do Instituto Liberal e foi candidato a uma vaga de deputado no Distrito
Federal pelo DEM.
A
procuradora Beatriz Sord postou várias fotos em sua página de uma rede social
ao lado de líderes do PSDB, como o senador Aécio Neves, que pediu o
encerramento da sessão. Nesta tarde, ela fez uma referência ao episódio no
Facebook e logo depois tirou do ar.
Contradição
Esses e
os demais participantes da manifestação nas galerias do plenário Ulysses
Guimarães tiveram a entrada no Congresso organizada por Izalci Lucas (PSDB-DF)
que recebeu, dos demais parlamentares da oposição, a tarefa de articular o
encontro de todos na Câmara. Os manifestantes levados por Lucas foram citados
por colegas do Distrito Federal como pessoas conhecidas em eventos diversos. O
deputado tucano negou que tivesse sido o coordenador do grupo. Disse apenas que
convidou todos por meio da internet, mas nada tinha a ver com a locomoção deles
até o Congresso.
“Todos
nós sabemos que o pessoal que veio até aqui é conhecido do Izalci, foi trazido
por ele”, acusou o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), líder do governo no Senado,
pouco tempo após a confusão. Oliveira insinuou, ainda, que as pessoas teriam
sido pagas para participar de um movimento armado previamente. “Isso não tem
fundamento”, rebateu o deputado do DF.
Nesta terça-feira foi a vez de chegar ao Congresso o cantor Lobão,
que ganhou espaço nos meios de comunicação por ter assumido discurso de direita
e é constantemente entrevistado em eventos e passeatas que pedem o impeachment da presidenta Dilma Rousseff – e
que recuou da promessa de que deixaria o Brasil caso a presidenta fosse
reeleita. Ele só se dirigiu à sessão depois de furar o bloqueio da segurança
com a ajuda de deputados. Levado pela oposição para a chapelaria do Senado,
disse que considerava “imoral” ver “uma coisa decidida sem a presença do povo
na casa do povo”. E pediu: “Quero falar com o líder", referindo-se ao
presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que pouco se
importou.
A chegada
do cantor teve tom de comédia quando a presença dele foi anunciada por Mendonça
Filho e recebeu um inicio de vaia. “Se fosse o Chico Buarque, garanto que todos
estariam cantando”, afirmou Mendonça Filho, fazendo as pessoas trocarem vaias
por risadas.
‘Seguidores’
A advogada
Denise Abreu, por sua vez, que circulou durante um bom tempo pelo Congresso,
contou que presenciou as manifestações ao lado do plenário e não na galeria e
que os parlamentares da base aliada estão enganados ao acharem que o episódio
não foi espontâneo. “Tive três milhões de intenções de voto quando me lancei
pré-candidata à presidência da República e estou em várias redes sociais. Meus
seguidores viram que estou aqui participando desse protesto para que a mudança
na LDO não seja votada. Quando eu gravo um vídeo, não significa que estou me
organizando”, acentuou ela. Denise Abreu ressaltou que veio a Brasília para
“acompanhar e assessorar todos os deputados que fazem oposição ao governo na
votação”.
A
advogada foi diretora da Anac no governo do ex-presidente Lula e ficou
conhecida porque ocupava o cargo durante o acidente com o avião da TAM que
matou 199 pessoas em julho de 2007, no aeroporto de Congonhas – que deu início
ao período conhecido no país como caos aéreo. O Ministério Público Federal
(MPF) apresentou parecer pedindo pena para ela de 24 anos de prisão, juntamente
com o diretor de segurança do referido voo, Marco Aurélio de Miranda, em razão
do cargo que ocupava na Anac, no período.
Além de
ter trabalhado durante 17 anos na Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo,
Denise Abreu também atuou, em 2003, na Casa Civil da Presidência da República,
quando o ministro era José Dirceu. Depois de sair da Anac e de ser
responsabilizada pelo MPF sobre o acidente, a advogada passou a criticar
publicamente o ex-presidente Lula, a presidenta Dilma e todo o PT.
Condições para votar
Para o
líder do governo na Câmara, deputado Henrique Fontana (RS), é natural existirem
opiniões diferentes e debates no parlamento. “O problema é dar aos deputados e
senadores condições para que votem, e isso não foi o que aconteceu ontem. O que
vimos foram xingamentos e atitudes de desrespeito”, acentuou. O líder do DEM,
Mendonça Filho, salientou que a assessoria jurídica da legenda está elaborando
um mandado de segurança para ser protocolado junto ao Supremo Tribunal Federal
(STF) pedindo a autorização para que as pessoas concentradas em frente ao
Congresso possam passar para as galerias.
A sessão,
iniciada no período da manhã, ainda está sendo realizada sem que tenha sido
votado ainda o projeto que altera a meta de superávit dentro da LDO – e promete
entrar noite adentro. Mas ao contrário da véspera, está sendo realizada com as
galerias vazias, mediante solicitação da mesa diretora do Congresso, que
proibiu a entrada dos manifestantes.
O texto
que causou toda a polêmica é o que flexibiliza as metas de superávit e que
permitirá ao governo menos cortes no Orçamento para alcançar equilíbrio fiscal
e honrar compromissos. O tema foi objeto de reunião no Palácio do Planalto, na
última segunda-feira, entre a presidenta Dilma, ministros e parlamentares da
base aliada, que chegaram a discutir a importância da sua aprovação e
estratégias para a votação.
O
Executivo espera conseguir alterar a LDO, por meio da matéria, com certa
celeridade para garantir a mudança no Orçamento Geral da União para 2015. Caso
não seja aprovado tal texto, o governo ficará impedido de realizar
investimentos em obras diversas, sobretudo as do Programa de Aceleração de
Crescimento (PAC). Integrantes da equipe econômica e ministros têm argumentado
que a medida é importante para o equilíbrio fiscal do país.
REDE BRASIL ATUAL 03 de dezembro de 2014 20:36
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 04.12.2014 14h12m
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