JANIO DE FREITAS: “HIPOCRISIA. NOS ÚLTIMOS 60 ANOS
TODOS OS PRESIDENTES TIVERAM RELAÇÕES COM EMPREITEIRAS”
por Janio de Freitas, na Folha
Como inquérito “sob segredo de
Justiça”, a Operação Lava Jato lembra melhor uma agência de propaganda. Ou, em
tempos da pedante expressão “crise hídrica”, traz a memória saudosa de uma
adutora sem seca.
Em
princípio, os vazamentos seriam uma transgressão favorável à opinião pública
ansiosa por um sistema policial/judicial sem as impunidades tradicionais. Mas,
com o jorro contínuo dos tais vazamentos, nos desvãos do sensacionalismo não
cessam os indícios que fazem a “nova Justiça” –a dos juízes e procuradores/promotores
da nova geração– um perigo equivalente à velha Justiça acusada de discriminação
social e inoperância judicial.
É preciso
estar muito entregue ao sentimento de vingança para não perceber um certo
sadismo na Lava Jato. O exemplo mais perceptível e menos importante: as prisões
nas sextas-feiras, para um fim de semana apenas de expectativa penosa do preso
ainda sem culpa comprovada. Depois, a distribuição de insinuações e informações
a partir de mera menção por um dos inescrupulosos delatores, do tipo “Fulano
recebeu dinheiro da Odebrecht”. Era dinheiro lícito ou provou-se ser ilícito? É
certo que o recebedor sabia da origem, no caso de ilícita?
A
hipocrisia domina. São milhares os políticos que receberam doações de
empreiteiras e bancos desde que, por conveniência dos candidatos e artimanha
dos doadores, esse dinheiro pôde se mover, nas eleições, sob o nome de
empresas. Nos últimos 60 anos, todos os presidentes tiveram relações próximas
com empreiteiros. Alguns destes foram comensais da residência presidencial em
diferentes mandatos. Os mesmos e outros viajaram para participar, convidados,
de homenagens arranjadas no exterior para presidente brasileiro. Banqueiros e
empreiteiros doaram para os institutos de ex-presidentes. Houve mesmo jantares
de arrecadação no Alvorada e pagos pelos cofres públicos. Ninguém na Lava Jato
sabe disso?
Mas a
imprensa é que faz o sensacionalismo. É. Com o vazamento deformado e o
incentivo deformante vindos da Lava Jato.
A partir
de Juscelino, e incluídos todos os generais-presidentes, só de Itamar Franco e
Jânio Quadros nunca se soube que tivessem relações próximas com empreiteiros e
banqueiros. A íntima amizade de José Sarney foi mal e muito comentada, sem que
ficasse evidenciada, porém, mais do que a relação pessoal. Benefícios
recebidos, sob a forma de trabalhos feitos pela Andrade Gutierrez, foram para
outros.
Ocorre
mesmo, com os vazamentos deformantes, o deslocamento da suspeita. Não importa,
no caso, o sentido com que o presidente da Odebrecht usou a palavra “destruir”,
referindo-se a um e-mail, em anotação lida e divulgada pela Lava Jato. O
episódio foi descrito como um bilhete que Marcelo Odebrecht escreveu com
instruções para o seu advogado, e cuja entrega “pediu a um policial” que, no
entanto, ao ver a palavra “destruir”, levou o bilhete ao grupo da Lava Jato.
Muito
inteligível. Até que alguém, talvez meio distraído, ao contar o episódio
acrescentasse que Marcelo, quando entregou o bilhete e fez o pedido ao
policial, já estava fora da cela e a caminho de encontrar seu defensor.
Então por
que pediria ao policial que entregasse o bilhete a quem ele mesmo ia encontrar
logo?
Fonte: DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO 28 de junho 2015 10h33m
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 29.06.2015 09h54m
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