'DESASTRE, AMEAÇA,
RETROCESSO': AUDIÊNCIA PÚBLICA RECHAÇA PL DA TERCEIRIZAÇÃO
Trabalhadores reafirmaram disposição de realizar
greve geral e manifestações até que o projeto seja arquivado pelos
parlamentares
Centrais sindicais, magistrados do trabalho, parlamentares e
pesquisadores reafirmaram na manhã de hoje (29) o repúdio ao Projeto de Lei da
Câmara (PLC) 30, de 2015, – antigo PL 4.330, de 2004 – que libera a
terceirização em todas as atividades nas empresas. Cerca de mil pessoas
participaram da audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de São
Paulo, rejeitando unanimemente a proposta.
“O PLC 30 em vez de efetivar os direitos trabalhistas e ampliar
oportunidade de emprego, serve para dividir ainda mais a classe trabalhadora, a
tal ponto de impossibilitar a sua organização. A luta dos trabalhadores não
deve ser pela modificação do projeto, mas pela rejeição”, defendeu, em carta
apresentada no evento, o Fórum Nacional em Defesa dos Trabalhadores Ameaçados
pela Terceirização.
O fórum foi criado para apresentar propostas contra a terceirização e
auxiliar na organização de trabalhadores, movimentos sociais, universidades e
defensores dos direitos trabalhistas. A pesquisadora Magda Biavaschi, do Centro
de Estudos Sindicais da Universidade Estadual de Campinas (Unicap), membro do
fórum, explicou que a entidade já apresentou uma proposta de regulamentação da
terceirização no país ao senador Paulo Paim (PT-RS), que vai no sentido oposto
ao do PLC 30.
A proposta não permite terceirizar atividade-fim, assegura igualdade de
direitos e condições de trabalho entre contratados diretos e prestadores de
serviços, garante a responsabilidade solidária entre empresas contratantes e
contratadas e regulamenta a representação sindical pela entidade preponderante.
“Não é flexibilizando os direitos que vamos melhorar a produtividade, aumentar
os ganhos e ampliar os empregos. Os anos 1990 foram os que tiveram maior
flexibilização e as condições trabalho e produtividade só pioraram”, disse
Magda.
Segundo estudo da CUT e do Dieese, os trabalhadores terceirizados
recebem salários até 30% menores, trabalham cargas horárias maiores e sofrem
mais acidentes de trabalho. Em cada cinco acidentes registrados, quatro
envolvem terceirizados. Além disso, será mais difícil combater o trabalho em
condições análogas à escravidão. Desde 2010, os auditores fiscais de São Paulo,
por exemplo, libertaram 827 trabalhadores brasileiros e estrangeiros nessas
condições em todas as áreas: agricultura, têxtil, construção. E 80% deles foram
contratados como terceirizados.
Paulo Paim (PT-RS), que é relator do PLC 30 na Comissão de Direitos
Humanos e Legislação Participativa do Senado e presidiu a audiência pública,
ressaltou que somente emendar ou substituir o projeto não resolve, pois ele
voltará à Câmara.
“A nossa intenção é derrubar (o PLC 30). Só fazer um substitutivo não
adianta. É preciso partir de um novo projeto, que será construído por essa
cruzada pelos direitos dos trabalhadores”, afirmou.
Mais cedo, em entrevista coletiva, Paim afirmou que somente com muita
“pressão e bateção de tambor” da população, será possível impedir a aprovação
do PLC 30. “Se o rufar dos tambores acontecer, o Congresso recua. A continuar
essa pressão, que os movimentos sociais estão fazendo corretamente, nós
derrubamos o projeto”, disse.
·
O representante da Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho
(Anamatra), Guilherme Feliciano, ressaltou que o projeto, embora venda a ideia
de que a terceirização melhora as condições e aumenta postos de trabalho,
apenas precarizara as relações entre trabalhador e empresa. “As vagas
existentes vão migrar dos locais atuais para as terceirizadas. As empresas
tomadoras ficarão isentas de cumprir normas e direitos. Apenas isso. Não vai
melhorar em nada.”
Apesar da preocupação quanto à proposta, a secretária de Comunicação da
CUT, Graça Costa, vê o envolvimento das centrais em atividades e discussões
conjuntas como um marco da luta dos trabalhadores: “O momento é especial para a
história da classe trabalhadora porque há um ataque muito forte, mas também há
a oportunidade única de juntar todas as centrais e outras entidades para fazer
um enfrentamento ao golpe que está em curso contra os trabalhadores do Brasil”.
Utilizando exemplos de sua categoria, a presidenta do Sindicato dos
Bancários e Financiários de São Paulo, Juvandia Moreira, apontou os danos que a
terceirização pode provocar. O Brasil já teve um milhão de bancários
contratados diretos. Hoje tem 500 mil diretos e 800 mil terceirizados. “Com a
terceirização todo mundo perde. Os trabalhadores, a Previdência, o FGTS. Nos
trabalhamos no setor que mais lucra e um dos que mais tem terceirização. Não
vai gerar emprego, mas sim lucro. Os bancários contratados têm carga horária de
30 horas, mas os terceirizados trabalham 44 horas”, destacou.
Para o vice-presidente da CTB em São Paulo, Pedro Mesquita, a
terceirização não afeta só salario, mas principalmente a organização dos
trabalhadores. “Imagine uma fábrica de automóveis, que tenha cinco mil
trabalhadores. Quantas empresas vão ser contratadas para fornecer essa mão de
obra? Como vamos garantir os direitos destes empregados, se a organização
sindical será totalmente fragmentada?”, questionou.
Os deputados federais Paulo Teixeira (PT) e Ivan Valente (Psol), ambos
de São Paulo, lembraram que a pressão quase reverteu a votação na Câmara, no
segundo pleito. “Na primeira votação a diferença foi imensa, mas na segunda
perdemos por 20 votos”, disse Teixeira. “O Congresso tem ampla maioria patronal.
Temos de mobilizar fábricas, escolas e as ruas para impedir esse desastre. E é
preciso o compromisso do veto presidencial de qualquer maneira a essa
proposta”, defendeu Valente.
Outra proposta é a divulgação das posições dos parlamentares para que toda
a população saiba quem votou contra os direitos dos trabalhadores
trabalhadores. “Esse não é um projeto de modernidade, como dizem. É um projeto
de exploração, de escravidão. E a população precisa saber como cada um se
posicionou sobre isso”, afirmou o secretário-geral da Intersindical, Edson
Carneiro, o Índio.
Fonte: REDE BRASIL ATUAL 29 de junho 2015 14h53m
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 29.06.2015 15h13m
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