A MÃO DOS MALAFAIAS E FELICIANOS NA AGRESSÃO DA MENINA QUE SAÍA DE
UMA FESTA DO CANDOMBLÉ
Os homens que apedrejaram a
menina carioca Kailane Campos, de 11 anos, que saía de uma festa do candomblé
têm um segredo. Se não um segredo, algo que preferem fazer longe de olhos
curiosos.
Trancados em uma sala, enchem-se de coragem e se entregam a um ritual bem
ensaiado.
Sob a
liderança de um homem de temperamento febril, exaltam histórias envolvendo
crimes violentos, tortura, morte de crianças, escravidão, incesto e banhos de
sangue.
As
histórias são saudadas com urros desumanos. Uma das mais populares é sobre um
alguém espancado que sangrou até a morte atado a pedaços de pau.
Olhado
assim, um culto baseado na história de Jesus Cristo – seja
ele católico, ou protestante, ou de qualquer outra denominação
cristã –, não parece ele alguma coisa torpe e repulsiva?
Senão,
vejamos. Qual é, então, a diferença entre o que foi dito acima
e acompanhar o que prega uma mulher vestida de branco que dança
rodando e fumando um charuto e fala com a voz grossa? O charuto que ela
fuma durante o culto, talvez.
O que dá
o direito a este grupo de pessoas, então, de jogar uma pedra na cabeça de uma
criança de 11 anos? A Lei, certamente, não é. Em vigor desde 5 de janeiro de
1989, a lei nº 7.716 considera crime a prática de discriminação ou preconceito
contra religiões no país.
“O que
chamou a atenção foi que eles começaram a levantar a bíblia e chamar todo mundo
de ‘diabo’, ‘vai para o inferno’, ‘Jesus está voltando’”, disse a avó de
Kaliane, a mãe de santo Kátia Marinho, de 53 anos.
Kaliane,
segundo a avó, foi criada nesta religião e até já frequentou a escola pública
com a indumentária típica do candomblé, que usava naquele dia: um pano de
cabeça e a saia de ração branca.”Continuo na religião, nunca vou deixá-la. É a
minha fé. Mas não saio de mais de branco. Nem no portão eu vou. Estou muito,
muito assustada. Tenho medo de morrer. Muito, muito medo”, disse Kaliane.
Como
dormir em paz sabendo-se que somos uma sociedade em que um bando de adultos
pusilânimes é capaz de atirar pedras na cabeça de uma criança por causa de sua
religião?
Que sejam
encontrados e punidos. Mas fico pensando: a razão não lhes falta à toa. Ela foi
tirada, a golpes de falácia fundamentalista, por pastores que não fazem senão
incitar o ódio.
Vou
soltar uma frase dita em um culto evangélico e que acabou vazando para a
imprensa. Tentem adivinhar o autor.
“Eu
profetizo a falência do reino das trevas. Profetizo o sepultamento dos pais de
santo. Profetizo o fechamento dos terreiros de macumba. Profetizo a glória do
Senhor na Terra.”
Nosso
deputado federal Marco Feliciano.
O notório
pastor Silas Malafaia já ordenou a seus fiéis que boicotassem a novela “Salve
Jorge”, de 2012, porque esta seria uma expressão usada para invocar a entidade
Ogum, presente em religiões de matriz africana. Disse, na TV, que se um pastor
invadisse um centro da macumba, deveria ser metido na cadeia.
No
discurso ladino dos pastores milionários, as religiões trazidas pelos escravos
são a representação do inimigo, e seus seguidores, perigosos enviados do
demônio.
Tal é a
situação que quando Malafaia quer bater em Edir Macedo, dono da Igreja
Universal do Reino de Deus e da Rede Record, diz que não há diferença entre um
templo da IURD e um terreiro de macumba. “Como exemplos, podemos citar a sessão
dos descarrego, o culto da rosa branca, os banhos de arruda, a sexta-feira
forte, o culto dos empresários, sem contar a utilização do sal grosso”,
escreveu Malafaia.
A questão
que nos está posta, como sociedade, é uma de responsabilidade. Somos chamados a
agir mais.
A
mensagem de tolerância, de aceitação do diferente, que está chegando a lugares
em que nunca chegou, não pode vir desacompanhada de ação.
Quem é
diferente está colocando a cara no sol. A menina Kailane se sentiu segura a
ponto de desfilar suas roupas do candomblé na rua. Levou pedradas.
O menino
Rafael Barbosa de Melo, de 14 anos, foi espancado até a morte no fim de semana
no Espírito Santo porque se vestia com roupas chamativas e tinha trejeitos
“diferentes”.
Na medida
em que a discussão avança e mais gente aceita a diversidade do mundo, quem toma
coragem para se assumir como o que é corre mais perigo na mão de monstros
estimulados pela pregação psicopata de malafaias e felicianos.
Enquanto
tudo isso acontece, os homens que fazem leis com bíblias debaixo do braço rezam
um Pai Nosso contra a parada gay na Câmara de Deputados, uma das mais nobres
casas de nosso Estado laico.
E o sangue
das crianças escorrendo.
DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO 16 de junho 2015
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 18.06.2015 07h16m
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