Após 10 anos, Estatuto do Idoso pouco avança
Dez anos
depois de o Estatuto do Idoso entrar em vigor, pouca coisa mudou quando se fala
em proteção dos direitos das pessoas da terceira idade e em implementação de
políticas públicas. Apesar de o número de denúncias anônimas sobre violações
dos direitos crescer a cada ano, o total de delações formais, registradas em
delegacias, e de inquéritos efetivamente instaurados ainda é pequeno.
De
janeiro de 2011 até junho de 2013, o Disque 100 - serviço gratuito da
Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) que recebe
denúncias de violações dos direitos humanos - já recebeu 54.317 ligações
especificamente envolvendo pessoas idosas. O crescimento é evidente: em 2011,
foram 8.220 ligações. Em 2012, foram 23.523 registros e, até junho de 2013,
22.754 denúncias - os dados do segundo semestre ainda não foram contabilizados.
As principais denúncias são por negligência, abuso financeiro e violência
física.
Em
contrapartida, o número de denúncias registradas formalmente na cidade de São
Paulo não cresceu na mesma proporção. Em 2004 - primeiro ano de vigência do
Estatuto, quando a capital tinha apenas uma delegacia especializada - foram
registrados 642 boletins de ocorrência e abertos 137 inquéritos policiais,
segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado.
Dez anos
depois, com oito delegacias especializadas na capital, foram registrados apenas
1.831 boletins de ocorrência e abertos 886 inquéritos. Até novembro deste ano,
segundo a SSP, as delegacias especializadas da capital não haviam realizado
nenhuma prisão.
O
delegado José Eduardo Ferreira Ielo, titular da 2.ª Delegacia de Proteção ao
Idoso, seccional Sul, diz que vários fatores ajudam a explicar os poucos
registros formais: ou a denúncia não se sustenta, ou não há testemunhas, ou o
idoso tem medo e vergonha. Segundo ele, a cada 20 queixas abertas na delegacia,
cerca de quatro viram inquéritos. "Quando vamos apurar, muitas denúncias
não refletem a existência de um delito real."
Ielo diz
que a maior parte do atendimento nas delegacias especializadas é para tirar
dúvidas. "Veio uma senhora registrar queixa porque a imobiliária tinha
rompido o contrato de aluguel. Tivemos de explicar por mais de uma hora que não
era um crime", conta.
Secretário
nacional de promoção e defesa dos direitos humanos e presidente do Conselho
Nacional do Idoso (CNI), Biel Rocha diz que falta muito para que o Estatuto
esteja realmente difundido. "Ele garante o direito ao envelhecimento
digno, mas ainda não está presente no dia a dia das pessoas. É preciso mais
investimentos."
Rocha
lembra que é mais cômodo fazer uma denúncia anônima e que, em geral, a
testemunha não dá continuidade na queixa, pois não a formaliza. Em alguns
casos, a ocorrência é registrada, mas não é levada adiante.
Foi o
caso do aposentado E.N., de 79 anos, que registrou um boletim de ocorrência por
não conseguir sacar a aposentadoria, que ficava com a irmã. "Por causa de
um problema de saúde, ela ficou responsável por meu pagamento, por procuração,
mas não me dava nada e me deixava trancado", conta.
Em maio,
após um ano vivendo nessa situação, o idoso disse à irmã que precisava ir ao
Poupatempo, no centro, e não retornou. "Fiquei morando na rua por três
dias, até que uma assistente social me encaminhou para o centro de
acolhida", diz. "Registrei o boletim, mas consegui voltar a receber
só no mês passado. Aí achei melhor deixar a denúncia para lá, porque o problema
já estava resolvido."
Folha de Pernambuco 03/01/2014
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 08.01.2014 08h27
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