Denúncias de tortura no Brasil cresceram 129% nos
últimos 3 anos
Amplamente usada
durante o regime militar, a tortura ainda é prática comum no Brasil. Antes
direcionada à atividade política, ela segue em uso contra a população, em geral
os mais pobres e vulneráveis. Nos últimos três anos cresceu 129% o número de
denúncias de tortura cometidas por agentes públicos no país. Entre 2011 e 2013,
foram relatados 816 casos por meio do Disque 100, da Secretaria Nacional de
Direitos Humanos, envolvendo 1.162 agentes do Estado. Só no ano passado, foram
361 registros.
Casos de tortura e violência policial já existiam no Brasil antes do
golpe militar de 1964. No entanto, para a socióloga e pesquisadora do Núcleo de
Estudos da Violência da USP (NEV-USP), Viviane de Oliveira Cubas, a ditadura
formalizou os instrumentos, e a democracia não conseguiu romper com o modelo.
O legado da ditadura foi a oficialização de práticas e condutas. Os
policiais não se identificam com os cidadãos, e nenhuma polícia é bem-sucedida
sem proximidade com a população diz Viviane.
Pesquisador de História da polícia e coordenador científico do
Observatório de Segurança Pública, o professor Luís Antônio Francisco de Souza
afirma que, até 1969, a Polícia Militar se chamava Força Pública e era
aquartelada, uma força reserva a ser usada apenas em situações de tumulto e
onde não havia a Guarda Civil. Depois do AI-5, que suspendeu os direitos
políticos e o voto, ela mudou de nome e assumiu o policiamento de rua. Ainda
hoje a Constituição estabelece, no parágrafo 6 do artigo 144, que as polícias
militares, incluindo bombeiros, são forças auxiliares e reserva do Exército,
embora sejam subordinadas aos governadores dos estados.
O militarismo é uma escola que precisa ter hierarquia e disciplinas
rígidas. Numa guerra, os soldados do Exército matam e morrem e não podem
questionar a ordem, que deve ser obedecida mesmo que não seja racional. O
problema não é se opor ao militarismo, mas ao uso dele na segurança pública,
que não pode ser isolada da comunidade explica Souza.
Presidiários
ainda sofrem com a prática
Segundo especialistas, os casos de tortura denunciados são infinitamente
menores do que o real. E a Polícia Militar não é a única nem a principal
instituição pública a usar a prática. Foi da Polícia Civil que surgiu o
delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury, que comandou as torturas no
Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo, por exemplo. E é
dentro dos presídios que hoje são registrados o maior número de crimes deste
tipo.
O problema é que o crime de tortura cometido por agentes públicos vira
lesão corporal ou abuso de autoridade até chegar à Justiça. A pesquisadora
Maria Gorete Marques Jesus analisou 51 processos de tortura abertos de 2000 a
2004 e julgados até 2008. Eram 203 réus, 181 deles agentes de Estado. Dos
agentes de Estado, 127 foram condenados. Enquanto a ONU vincula a tortura como
crime de Estado, no Brasil, ela é crime aplicável a pessoas comuns (mães, pais,
padrastos etc). Doze réus da pesquisa eram cidadãos comuns e metade foi
condenada. Entre os policiais, 70% foram absolvidos.
Temos uma marca muito forte da ditadura. No caso de agentes do Estado
julgados, a fala da vítima é sempre colocada em suspeição e tem pouca
credibilidade. Como a tortura é um crime sem testemunhas, a vítima é quem tem
de provar. Quando é uma mãe acusada de torturar um filho, é a fala dela que é
questionada. Há ainda margem para classificar a tortura como outros crimes no
caso de agentes de Estado. Vi um promotor tentando denunciar um policial por
abuso de autoridade, enquanto o juiz dizia que era tortura. Este tipo de
classificação mascara o número de casos diz Maria Gorete, do NEV/USP.
Segundo Viviane, 18 anos após a primeira ouvidoria de polícia instalada
no Brasil, em São Paulo, cinco estados ainda não têm o mecanismo. Ao pesquisar
a ouvidoria de São Paulo, ela constatou que, enquanto no mundo todo as
ouvidorias servem para ouvir a população, aqui ela também recebe queixas dos
policiais cerca de uma por dia entre 2006 e 2011. Na maioria dos casos, o
problema é de relações do trabalho, o que, segundo Viviane, revela a ausência
de canais internos.
A Ouvidoria não tem poder para investigar e apenas oficia reclamações à
Corregedoria. No caso da PM, o inquérito policial militar corre em segredo de
Justiça.
Uma pesquisa feita pelo NEV mostra que a população de fato relativiza a
tortura, com certo grau de aceitação do uso para obter confissões. Foi
perguntado aos entrevistados se os tribunais podem aceitar provas obtidas
através de tortura. Em 1999 houve clara discordância, com 71,2% das respostas.
Em 2010, o percentual caiu para 52,5%.
Embora a maioria diga que a polícia deve investigar sem violência, um
terço dos entrevistados concordou que a polícia utilize meios ilegais, como
ameaçar, bater, dar choques ou queimar com ponta de cigarro, ameaçar membros da
família e até deixar sem água ou comida. Quanto mais jovem o entrevistado,
maior parece ser a tendência a apoiar o uso de práticas de tortura, ressalta o
estudo.
O
Globo Online 01/04/2014
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 03.04.2014 08h23m
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