Por que a carga tributária é alta e os serviços são
ruins?
Os protestos ocorridos em 2013, apesar do público diverso, tiveram em
comum o desejo por serviços públicos de qualidade, tais como transporte
coletivo, segurança, infraestrutura urbana, saúde e educação. Há uma
insatisfação com o modelo de Estado brasileiro, caracterizado pela elevada
carga tributária e serviços públicos ruins. Mas por que o Estado brasileiro tem
um custo tão alto e presta serviços de má qualidade?
A resposta começa pela análise da distribuição dos gastos públicos no
Brasil, separando-os em dois grupos: as transferências diretas de recursos e a
prestação de serviços públicos. As transferências diretas são aquelas em que há
repasse de recursos monetários a empresas e famílias sem a contrapartida da
prestação de um serviço pelos beneficiários, e incluem previdência, pagamento
de juros, subsídios e outras transferências. Os demais recursos, por definição,
seriam direcionados à prestação de serviços públicos e manutenção da máquina
pública.
Conforme dados do Ministério da Fazenda, entre 2009 e 2012, as
transferências para previdência, assistência social e subsídios, representaram
de 15% a 16% do PIB. Se adicionarmos o pagamento de juros da dívida pública,
cerca de 5% do PIB, teremos mais da metade da carga tributária de 35% destinada
a transferências, restando cerca de 15% do PIB para a prestação de serviços.
Esses números explicam a elevada carga tributária, mas não necessariamente a má
qualidade dos serviços prestados, pois a carga tributária líquida brasileira é
compatível com a de países ricos e superior a de muitos países emergentes.
Administração pública é patrimonialista, com políticos e
burocratas usando a máquina para benefício pessoal
O economista Marcos Mendes identifica a concentração de renda e a consequente
demanda por benefícios públicos dos pobres, que ganharam influência política
com a redemocratização brasileira; e dos ricos, que têm o poder econômico para
influenciar as decisões políticas, como a causa de problemas como carga
tributária elevada, limitados investimentos em infraestrutura e baixa qualidade
de serviços públicos.
Concordamos, mas entendemos que o problema tem origem anterior à
redemocratização. Nesse sentido, os economistas Marcos Lisboa e Zeina Latif
argumentam que a política econômica brasileira foi historicamente caracterizada
pela concessão de privilégios, benefícios e proteção a determinados setores ou
grupos econômicos, como parte da política de desenvolvimento liderada pelo
Estado. Essas concessões criaram grupos de interesse capazes de proteger seus
privilégios à custa dos consumidores e dos contribuintes. O que gostaríamos de
acrescentar em relação às hipóteses citadas é a dificuldade gerencial do Estado
brasileiro para prestar serviços públicos básicos.
Assim, da década de 1930 à década de 1980, quando o fomento à
industrialização tornou-se objetivo primário do Estado brasileiro, foi
enfatizada a redistribuição de recursos, por meio de subsídios, proteção
tarifária, taxa de câmbio diferenciada, empréstimos subsidiados, isenções
tributárias, etc como mecanismo de incentivo aos setores selecionados. Para
conduzir todo esse processo de intervenção econômica e redirecionamento de
recursos era necessário incrementar a capacidade gerencial do setor público, o
que foi tentado por meio da descentralização administrativa e da
profissionalização de algumas carreiras de elite de funcionários públicos.
Já as carreiras ligadas à prestação de serviços ao cidadão continuavam
desprestigiadas, ao mesmo tempo em que a rápida urbanização gerava expansão da
necessidade de serviços como transporte, infraestrutura urbana, segurança,
saneamento, educação e saúde. O resultado foi a favelização das grandes
cidades, o aumento da violência e a impressão de que a taxa média de crescimento
da economia de 7% ao ano trouxe poucos benefícios para a maioria da população.
Com a redemocratização, o Estado passou a enfatizar a redistribuição
para os mais pobres, mas continuou incapaz de prestar serviços públicos de qualidade
devido a dificuldades gerenciais resultantes de um misto de administração
pública burocrática, com ênfase em processos e não em resultados, e
patrimonialista, com políticos e burocratas utilizando a máquina estatal para
benefício pessoal e de apadrinhados.
Nos últimos anos, o foco do Estado na redistribuição de recursos entre
diferentes setores econômicos voltou à tona, com a forte expansão do crédito
subsidiado e o controle de preços relevantes, o que, além de criar distorções
de preços relativos, gera custos fiscais elevados. Além disso, as dificuldades
gerenciais do setor público continuam, o que fica evidente na baixa qualidade
dos serviços prestados e nas dificuldades de execução de obras de
infraestrutura prioritárias.
Para melhorar a qualidade dos serviços públicos seriam necessários a mudança de
foco do Estado da redistribuição direta de recursos para a prestação de
serviços para o cidadão e o aumento da eficiência da máquina pública, o que
exigiria a ênfase nos resultados dos serviços prestados e não no controle de
processos, a competição entre os vários ofertantes de serviços públicos,
salários de funcionários vinculados, pelo menos em parte, a metas e resultados,
transparência e prestação de contas à sociedade e aos usuários dos serviços
públicos, os quais deveriam dispor de mecanismos eficazes de cobrança em
relação à qualidade desses serviços.
Também seria necessária a mudança das práticas políticas, com o loteamento do
controle da gestão de partes importantes da máquina pública deixando de ser um
dos principais mecanismos para a viabilização de alianças. Além disso, o desvio
de recursos públicos para o benefício indevido de particulares deveria ser
punido com todo o rigor da lei.
Ailton Braga é
consultor legislativo do Senado e ex-analista do Banco Central. E-mail: a2braga@uol.com.br
Valor
Online 09/04/2014
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 09.04.2014 08h18m
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