O mundo é para poucos
Os impostos pagos pelos ricos foram cortados para o infortúnio de
202 milhões de desempregados
Divulgada
na abertura do encontro anual da elite econômica global em Davos, na Suíça, a
pesquisa "Trabalhando para Poucos", da ONG inglesa Oxfam, bem poderia
se chamar "Vejam o Que os Senhores Conseguiram". Ganhou manchetes
mundo afora ao apontar para a hiperconcentração de riqueza em andamento na
quase totalidade dos países ocidentais. Sete em cada dez indivíduos vivem em
países onde a desigualdade avançou nas últimas três décadas, informa a Oxfam.
Segundo o
estudo, a crise financeira detonada em setembro de 2008 veio a calhar para os
mais ricos. O 1% do topo da pirâmide, anota a pesquisa, detém hoje metade da
riqueza gerada no planeta. O financista norte-americano Warren Buffett é um
exemplo da turma ganhadora: acumulava patrimônio de 40 bilhões de dólares antes
da quebra do Lehman Brothers, e nada atualmente em uma piscina recheada de 59
bilhões de moedas. O quarto mais rico do planeta, segundo a lista da Forbes, Buffett é um dos 85 afortunados que,
aponta a Oxfam, possuem patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da
população mundial, ou 3,5 bilhões de cidadãos. "Alguma desigualdade
econômica é essencial para conduzir o crescimento e o progresso", escrevem
os responsáveis pela pesquisa. "Os níveis extremos de concentração da
riqueza atuais, entretanto, ameaçam excluir centenas de milhões de obter os
ganhos de seus talentos e trabalho duro."
Não
é outra coisa o que tem
acontecido desde o crash, com maior intensidade nos dois polos mais
afetados pela crise, os EUA e a Zona do Euro (exceto a Alemanha). O quadro
retratado espelha as opções feitas para enfrentar a crise, desenhadas de acordo
com os interesses dos bilionários, constata a ONG. A saída escolhida foi salvar
bancos e companhias consideradas "grandes demais para quebrar", ao
mesmo tempo que os gastos públicos eram cortados indiscriminadamente.
O
resultado foi uma onda avassaladora de desemprego e a falência de empresas cuja
quebra, para as autoridades, teria o efeito positivo de ampliar a eficiência da
economia como um todo. Nesse sentido, as políticas adotadas deram certo. O
levantamento mais recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT)
contabiliza 202 milhões de desempregados no mundo, 5 milhões a mais do que no
fim de 2012. Mantida a tendência, algo bastante provável, serão 215 milhões sem
empregos no fim de 2017, estima Guy Rider, diretor da OIT.
O
estudo da Oxfam
enumera algumas das causas da concentração crescente. Há décadas a falta de
limites minou a representação popular nos Parlamentos. E o lobby das maiores
corporações aos poucos tirou do caminho regras e leis forjadas para garantir
(ou ampliar, conforme o caso) a concorrência nas economias. Estima-se que os
bancos norte-americanos gastaram 1 bilhão de dólares em lobby nos últimos anos
para enfraquecer e adiar a legislação em discussão para tornar o sistema
financeiro menos arriscado.
A corrupção, a perversidade de sistemas tributários como o brasileiro, que taxa
proporcionalmente mais quem tem menos, os subsídios, a redução dos gastos em
saúde e educação públicas, a perda de espaço dos sindicatos de trabalhadores e
uma rede internacional de paraísos fiscais (em que, estima a ONG, cerca de 18
trilhões de dólares são escondidos para não pagar impostos) também explicam o
processo em andamento.
O marco
zero dessa tendência, contudo, não tem nada de novo. Especialistas o situam no
período que vai do fim da década de 1970 ao início dos anos 80, sob os
auspícios da onda neoliberal e da desregulação dos mercados, particularmente o
financeiro, sob a batuta ideológica da dupla Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
A
resultante constatada agora não é um efeito colateral inesperado. Ao contrário.
A cartilha Reagan-Thatcher recomendava deliberadamente o corte dos impostos dos
mais ricos, em paralelo à redução dos direitos sociais e salários dos mais
pobres, com o argumento de que o primeiro movimento garantiria fôlego para o
consumo, enquanto o segundo ampliaria a competividade da economia ao reduzir o
custo do trabalho. Uma parcela considerável das palavras de ordem
pró-desregulação foi tecida, por sinal, justamente no Fórum Econômico de Davos,
que nesta edição, diante da escala da tragédia social nos países ricos, procura
convencer a opinião pública de que, no fundo, estão preocupados com a distância
crescente entre ricos e pobres. Ao custo de 40 mil dólares por participante,
vale notar.
Na
ponta do lápis, o quadro evoluiu nos EUA conforme o esperado pelos formuladores
de tais políticas: a renda dos 10% mais pobres avançou, desde meados dos anos
1980, apenas 0,1% ao ano. Já aquela dos mais ricos cresceu, pela mesma métrica,
1,5%. No Reino Unido, o mesmo movimento: a renda avançou, em média, 0,9% na
base da pirâmide e 2,5% entre os 10% do topo. Estudo da Organização de
Cooperação e Desenvolvimento Econômico, realizado em 2011, apontou os EUA, o
Reino Unido e Israel como "pioneiros" da regressão social entre os
mais ricos. A partir dos anos 2000, anota a pesquisa, a tendência incluiu as
nações tradicionalmente menos desiguais, caso da Alemanha, Dinamarca, Suécia e
outros países nórdicos.
A
partir do crash de 2008,
a concentração da riqueza ganhou força, resultado da opção de salvar os grandes
bancos e corporações. No estudo da Oxfam, o caso norte-americano é mais uma vez
destaque: 95% do ganho de renda registrado a partir de 2009 no país foi para o
1% mais rico. E, quanto mais no topo, maiores os ganhos proporcionalmente. Em
2012, por exemplo, enquanto o 1% mais rico ficou com 22% da renda do país, o
0,1% mais afortunado abocanhou 11% do bolo. Um norte-americano do sexo
masculino e graduado recebe atualmente, em média, 40% do que recebia quatro
décadas atrás.
No artigo
"A desigualdade é uma opção", publicado em outubro de 2013, o Nobel
de Economia Joseph Stiglitz, professor da Universidade Columbia, comenta a
hiperconcentração em curso. De 1988 a 2008, anota o economista, a renda do 1%
mais rico do planeta cresceu cerca de 60%. No mesmo período, a dos 5% mais
pobres manteve-se estagnada. "Os ganhos de renda têm sido maiores entre
aqueles da elite mundial - executivos financeiros e corporativos dos países
ricos - e as amplas 'classes médias emergentes' de China, Índia, Indonésia e
Brasil. Quem perdeu? Africanos, alguns latino-americanos e cidadãos do Leste
Europeu pós-comunista e da antiga União Soviética."
Apesar de
bem-vinda, a discussão em torno da desigualdade em Davos está longe de ser
sinal de uma nova postura - e seria loucura supor que haverá ali uma guinada
ideológica. Em 2005, o tema ocupou o topo das preocupações dos milionários
reunidos na Suíça, àquela altura em companhia dos debates sobre o terrorismo.
Em 1994, o tema também foi abordado, quando Klaus Schwab, presidente do fórum,
definiu o encontro como uma oportunidade para "um gigantesco brainstorm para líderes empresariais, políticos,
científicos e culturais, para analisar todos os pressupostos básicos da
humanidade".
Então, os
ouvintes saíram de Davos, embarcaram em seus jatos particulares e foram
cultivar suas fortunas.
06/02/2014 por Carta Capital
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 06.02.2014 07h38m
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