Correio Braziliense: "Vida mais longa e renda menor"
7 agosto
2013 às 10:27
A longevidade do brasileiro avançou 11,2 anos nas
últimas três décadas, indicando melhoria na qualidade de vida da população,
conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas,
contraditoriamente, a maior expectativa atinge em cheio o valor das
aposentadorias, indicando que as pessoas terão mais tempo de vida, mas com
menor renda.
O motivo é o chamado fator previdenciário,
mecanismo em vigor desde 1999 que leva em conta a longevidade e age como
redutor dos benefícios de quem entrou jovem no mercado de trabalho. Em média, a
cada três anos, o brasileiro vê sua expectativa de vida avançar 12 meses.
Seguindo essa tabuada, o cálculo do fator é corrigido anualmente pelo Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS), conforme cresce a estimativa medida pelo
IBGE. Pela composição do fator, a cada ano que passa, o segurado perde entre
0,5% (homens) e 0,6% (mulheres) no valor dos benefícios.
Contrariando a torcida de quem está prestes a se
aposentar, mas ainda não completou a idade mínima, o redutor será mais uma vez
atualizado a partir de 1º de dezembro próximo, levando em conta o aumento da
expectativa de vida -- quanto mais longa, mais agressiva se torna a ferramenta.
O Senado aprovou em 2008 um projeto do senador
Paulo Paim (PT-RS) que extingue o fator, mas a proposta está parada na Câmara e
especialistas não veem clima, nesse momento, para que ela seja votada. Só no
ano passado, o redutor gerou economia de R$ 11 bilhões para a Previdência.
"A queda do fator previdenciário depende de pressão popular. Se não houver
pressão, é difícil", disse Paim.
Ângela se aposentou, mas faz bicos para poder pagar
as contas
Malabarismos Ângela Paula de Almeida cumpriu 30
anos na ativa e fez os cálculos para se aposentar. Não deu. Na ocasião, o fator
era super agressivo para ela, que assinou a carteira muito jovem, perto dos 20
anos. "Meu benefício seria reduzido em mais de 50%", contou. A
solução para Ângela foi continuar mais seis anos na ativa. "Mesmo assim,
me aposentei com 20% menos", apontou a ex-secretária, que saiu do mercado
há três anos, aos 55 anos de idade.
Para fechar as contas, Ângela teve que fazer
malabarismos. "Não voltei a trabalhar com carteira assinada, mas continuo
fazendo bicos com pequenas costuras, remendos em geral, para completar a
aposentadoria, que é muito pequena e tende a diminuir ainda mais ao longo dos
anos." "A atualização periódica do fator leva em conta a sobrevida do
brasileiro a partir da data da aposentadoria. Quanto mais longa é essa
expectativa, mais forte é o peso do redutor", explica Jane Baewanger,
presidente do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP). Segundo
ela, o fator traz uma economia para os cofres da Previdência, mas o custo
social é muito elevado. "Geralmente a saída para o brasileiro é compensar
essa defasagem permanecendo no mercado de trabalho, mesmo depois da
aposentadoria. No entanto, quando se afasta de vez do mercado, ele fica com o
benefício muito pequeno."
Ganhos reduzidos
O brasileiro aposenta-se em média com 35 anos de
contribuição. Se tiver 54 anos de idade, terá um corte de 30% no benefício. Para
muitos, a opção tem sido aceitar o valor menor, mas continuar no mercado de
trabalho. "Na década de 1980, 50% ganhavam um salário mínimo. Hoje, são
70%. O fator previdenciário faz parte das políticas de redução do
benefício", disse Diego Gonçalves, advogado da Federação dos Aposentados e
Pensionistas de Minas Gerais.
Publicado em 07/08/2013 no Correio Braziliense. Por
Marinella Castro.
Adicionado por blog do SINPROCAPE – 07.08.2013
12h22m
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