TEMER DELETA A
REFORMA POLÍTICA, MAS MANTÉM A TRABALHISTA E A PREVIDENCIÁRIA
"Duas reformas foram anunciadas por Temer e por Meirelles. A
previdenciária e a trabalhista, que quando apresentadas vão enfrentar fortes
reações dos movimentos sociais e sindicais contra a supressão ou redução de
direitos. Já sobre a reforma política ele não disse uma palavra", diz a
colunista Tereza Cruvinel; "Está bem que seja muito cedo para avançar em
tema tão complexo. Mas a hora da posse foi hora de compromissos, e este ele não
fez, ainda que possa dizer que só tomará tal iniciativa se for efetivado no
cargo. Mas é sintomático”.
por Tereza Cruvinel
Muitos assuntos antes palpitantes vão
morrer ou sair de cartaz, agora que tudo foi consumado. Um deles é a
reforma política, que foi muito pregada pelo presidente interino Michel Temer,
quando falava de suas prioridades caso assumisse a Presidência. O PSDB
incluiu-a no documento com 15 propostas apresentado ao ainda vice-presidente no
dia 3 de maio como premissas para apoiar seu futuro governo. Temer agora
assumiu e loteou seu ministério entre 11 partidos, tal como fizeram todos os
seus antecessores desde que a proliferação partidária e o viés parlamentarista
da Carta de 1988 nos impuseram o tal presidencialismo de coalizão.
Tal como outros presidentes, Temer já
enfrenta disputas na base e reclamações dos que não foram contemplados na
montagem do ministério. O deputado Paulo Pereira da Silva, dono do SD, reclama
de eventual criação de tributo, anunciada pelo ministro da Fazenda Meirelles,
mas ele não gostou mesmo foi de seu partido ter ficado fora do primeiro
escalão. Logo ele, que tanto trabalhou pela derrubada de Dilma, montando
palanques sindicais para Eduardo Cunha e Aécio Neves. O senador Perrela
avisa que se Temer não tratar muito bem o Senado pode perder votos que garantem
a condenação de Dilma e, por decorrência, sua efetivação no cargo. Rodrigo Maia,
do DEM, e André Moura, do PSC, ligado a Cunha, disputam a liderança do Governo,
cargo que o próprio Temer deveria escolher.
Duas reformas foram anunciadas por
Temer e por Meirelles. A previdenciária e a trabalhista, que quando
apresentadas vão enfrentar fortes reações dos movimentos sociais e sindicais
contra a supressão ou redução de direitos. Já sobre a reforma política ele não
disse uma palavra. Está bem que seja muito cedo para avançar em tema tão
complexo. Mas a hora da posse foi hora de compromissos, e este ele não fez,
ainda que possa dizer que só tomará tal iniciativa se for efetivado no cargo.
Mas é sintomático.
O governo que começa pode ser
classificado de reacionário ou restaurador, no sentido amplo de tais palavras,
não na acepção pejorativa. Representa uma reação e uma negação a valores,
políticas e concepções do governo que está substituindo. É a volta ao que
havia mudado a partir de 2002 com a chegada do PT ao governo. Não que o PT
tenha feito governos revolucionários mas porque tentou governar com uma frente
ampla que incluía setores (e interesses) populares. Já o governo de Temer,
embora tenha falado tanto em reformar e consertar, não deu qualquer sinal de
que será reformista na política. É tudo mais do que já vimos, e com
atores piorados.
O compromisso com a reforma política
era elementar para sinalizar que tentará mudar o sistema que vem
produzindo seguidos surtos de corrupção e instabilidade, afora danos para a
administração pública e a qualidade dos serviços prestados pelo Estado, a
partir do loteamento que visa a formação da maioria e não a qualidade dos nomes
colocados nos postos estratégicos. Não sobrou para nenhum notável, exceto
Meirelles e Serra.
E ainda que Temer propusesse uma
reforma política digna do nome, que enfrentasse os mais graves problemas, como
o financiamento de partidos e campanhas, as coligações proporcionais, a
porteira aberta para a criação de partidos de balcão, sua base nada aprovaria.
Por que irá este Congresso que já mostrou sua cara mudar regras que garantem a
eleição de parlamentares como os que temos, dedicados a usar o mandato para
arrancar vantagens? Por que mudar o sistema que trocou a presidente por seu
vice mas continuará indicando, através dos partidos aliados para governar, os
cargos com que se opera a velha aliança entre políticos e empresários para
ordenhar o Estado?
A única solução seria a Constituinte
exclusiva, composta por pessoas eleitas exclusivamente para reescrever os
capítulos relacionados com a ordem política, que a Constituinte não ousou
enfrentar. Este o maior defeito da Carta Cidadã. Como ele é contra, só
uma ruptura ainda mais traumática do que esta que estamos vivendo abriria
caminho para que tal mudança se impusesse. Fora disso, em breve
veremos a base chantagear o novo ocupante do Planalto, veremos MPs serem
desfiguradas e enxertadas com artigos negociados diretamente com forças
econômicas interessadas, veremos o tributo de Meirelles ser rechaçado e, se for
preciso, a aprovação de algumas bombas. Por isso e por muitas outras razões,
não há tempo bom à vista para Temer. Nem para a democracia ferida.
Fonte: BRASIL 247 15 de maio de 2016
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 15.05.2016 11h52m
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