Retrocessos
IVES GANDRA FILHO, ARTÍFICE DE UMA REFORMA
TRABALHISTA AO GOSTO DE TEMER
O presidente do Tribunal Superior
do Trabalho advoga pela terceirização sem limites e pela prevalência do
negociado sobre o legislado
Por Patricia Iglecio/ Edição: Brenno Tardelli
Despercebido
do público em geral, o retrocesso trabalhista pela via judicial terá
o seu ápice a votação da terceirização irrestrita no próxima quarta-feira, 9 de
Novembro, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Para entender como a situação
chegou a tal ponto, é necessário compreender uma das principais figuras nesse
cenário: o presidente do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT) e do
Tribunal Superior do Trabalho (TST), ministro Ives Gandra da Silva Martins
Filho.
Abaixo
apenas do Supremo, é o TST que decide as maiores controvérsias do ramo do direito
do trabalho, por meio de seus vinte e sete ministros que se agrupam em turmas
especializadas. Já o CSJT exerce a supervisão administrativa, orçamentária,
financeira e patrimonial da Justiça do Trabalho de primeiro e segundo graus.
Paralelo
à rotina de julgamentos pela corte e de suas soluções administrativas, há a
atuação do próprio TST enquanto instituição, e, nesse sentido surge a figura de
Ives. Presidente da Corte desde 25 de fevereiro, o ministro já naquele momento
deu o tom que pretendia no seu mandato, ao fazer o apelo pela flexibilização
dos direitos trabalhistas para supostamente beneficiar os próprios
trabalhadores.
De
lá para cá, Ives premiou a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
(Fiesp) e a Friboi com a “Ordem de Mérito da Justiça do Trabalho”, defendeu
publicamente o negociado sobre o legislado e também a terceirização sem limites.
Em entrevista ao jornal O
Globo, afirmou que “a justiça trabalhista precisa ser menos paternalista
para tirar o País da crise”.
Segundo ele, não faz
sentido entregar de “mão beijada” indenizações de milhões de reais aos
trabalhadores.
As
palavras do ministro causaram revolta na comunidade jurídica. A Associação
Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) afirmou que “pontos
das convicções esboçadas na entrevista ao O
Globo não se identificam com
o pensamento majoritário da Magistratura do Trabalho”.
A
Associação Juízes para a Democracia (AJD) repudiou o conteúdo da fala,
afirmando que o tom crítico de Gandra, que pertenceu ao Ministério Público do
Trabalho antes de se promover ao TST, sobre indenizações de “mão beijada” não é
o mesmo quando o assunto é acidente no trabalho, que faz o País ocupar umas das
primeiras colocações no quesito.
A
irritação da magistratura do trabalho com o atual presidente do TST supera o
fato de ele ser porta voz do empresariado para questões internas. Em agosto, o
ministro excluiu sem maiores discussões a Anamatra do CSJT, tornando-a uma
entidade composta apenas por presidentes de tribunais que pouco dialoga com a
primeira instância.
Reflexo
negativo para trabalhadores
As frases do ministro não
indicam que a Justiça do Trabalho passará obrigatoriamente a decidir dessa
forma, mas são de suma importância para o debate jurídico, uma vez que ele
representa como autoridade máxima o próprio TST, os vinte e quatro Tribunais
Regionais do Trabalho (TRTs) e as milhares de varas trabalhistas espalhadas
pelo País. Ora, se o próprio Presidente do Tribunal Superior do Trabalho fala
pela flexibilização dos direitos trabalhistas, quem dos círculos corporativos
falará contra?
Na
terça-feira 1, a Associação Brasileiras dos Advogados Trabalhistas (Abrat)
divulgou uma carta aberta ao ministro, cobrando-o justamente de suas posições:
“A Justiça do Trabalho e o Direito do Trabalho continuam vítimas de ataques,
que são contínuos e permanentes, a indicar que estão sintonizados. E vem por
todos os lados. Executivo. Legislativo. Mídia. Todos em orquestra. Agora, de
dias para cá, também se vêm atacados pelo próprio Judiciário”.
Enquanto
presidente do TST, o ministro tem a importância de discutir temas como a PEC
241, que congela os gatos do governo e representa um duro golpe nos direitos
sociais da Constituição, justamente quando a própria Justiça do Trabalho tem
sofrido cortes em seu orçamento. Apesar dessa situação e da oposição dentro das
carreiras, quem está à mesa é Ives, absolutamente favorável à proposta.
Em
4 de outubro, Ives pediu ao presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia
(DEM-RJ), a retirada de tramitação da Casa de 32 projetos de interesse da
Justiça do Trabalho. As propostas são para a criação de 100 varas da Justiça,
contratação de seis mil servidores e de 200 juízes do trabalho.
Gandra,
mais uma vez, apoia-se no discurso do governo, fazendo sua relação instituição
contra o crescimento da Justiça do Trabalho enquanto ela própria enfrenta uma
de suas maiores crises orçamentárias. “A Justiça do Trabalho não quer se
expandir, mas quer sobreviver e necessita de uma exceção no ajuste fiscal para
ter acesso a remuneração dos seus depósitos judiciais. Só assim, ela conseguirá
nos próximos anos abrir as suas portas porque sem essa exceção no ajuste fiscal
realmente nós não teremos como estar funcionando até o final de 2017”, afirmou.
O
ministro se refere ao corte, na Lei Orçamentária para 2016, de 30% das verbas
de custeio e 90% dos recursos destinados para investimentos no setor foram
cortados. Embora seu discurso do “ajuste fiscal” e da “crise econômica” sejam
usuais, nesse caso a origem é outra.
Na
época da elaboração do projeto orçamentário, Ricardo Barros, então deputado
relator e atual ministro da Saúde afirmou porque cortaria a verba da Justiça
Trabalhista: “Tenho alergia à Justiça do Trabalho!”.Ao
analisar os efeitos da Justiça do Trabalho, Barros curiosamente converge com as
opiniões de Ives: “[as regras trabalhistas] estimulam a judicialização dos
conflitos trabalhistas, na medida em que são extremamente condescendentes com o
trabalhador”. Faltou só falar “de mão beijada”.
Às
vésperas de seus 75 anos, a Justiça do Trabalho tem em um de seus maiores
opositores seu próprio presidente. A gravidade da situação foi exemplificada
nas palavras da Juíza do Trabalho, Valdete Souto Severo, em artigo publicado no Justificando: “É mais difícil
assimilar o golpe, quando o ataque vem do próprio TST, em discursos e decisões,
ou mesmo em eventos organizados para propagar a necessidade de destruí-la por
dentro, sob o pretexto de uma falsa modernização, na qual a palavra de ordem é
a livre negociação entre as partes e a fragilização das entidades sindicais”.
STF e Ives seguem a mesma
cartilha
Apesar de
contar com franca resistência dentro das carreiras trabalhistas, a política
institucional e conduta de Ives está em harmonia com as última decisões do
Supremo Tribunal Federal (STF), que, segundo o ministro “deram sinalização
clara da necessidade de uma maior flexibilidade da legislação trabalhista”.
Ives
se referiu à decisão do Supremo Tribunal Federal que eliminou a desaposentação
e o direito de greve para servidores públicos; este último decidido unicamente
com base em argumentos factuais políticos, restou bem explicado na fala do min.
Luiz Fux: “Estamos num momento muito difícil e que se avizinha deflagrações de
greve e é preciso estabelecer critérios para que nós não permitamos que se
possa parar o Brasil”.
Assim
como o Presidente do TST, o STF adota práticas na exata medida do desejo do
Governo Federal.
por Justificando — publicado 07/11/2016 00h49
Fonte: CARTA CAPITAL 07 de novembro 2016
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 07.11.2016 08h04m
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