A PEC 241 E A CEGUEIRA
IDEOLÓGICA
Se o Senado
referendar o texto aprovado pela Câmara, a economia enfrentará um desastre
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas
Qualquer
um, inclusive o Estado, se quiser bons resultados, deve focar em gastar no que
gera mais receitas. Não se pode olhar despesas e receitas em separado – regra
básica econômica, financeira e contábil.
Com
a PEC 241, o governo Temer, num momento de
queda de receitas e aumento de despesas financeiras, congela as despesas
primárias, que, provadamente por diversos exemplos teóricos e práticos, podem
gerar mais produtividade e receitas.
A
PEC, para ter algum sentido, deveria passar a régua rígida de congelamento no
lado das despesas não primárias, não nas primárias, que deveriam sofrer revisão
caso a caso. Todo ano o governo teria de pagar menos juros e quitar parte da
dívida.
As
trajetórias das diferentes despesas primárias são variadas e precisam ser
corrigidas uma a uma, com análise complexa de políticas públicas.
São
elas, ademais, que elevam demanda agregada e produtividade, de modo que, ao
proibir aumentos reais, a economia ficará afundada em crise.
Investimentos
públicos em infraestrutura incentivam o investimento privado e geram ativos
imobilizados, como pontes, aeroportos, estradas, ferrovias, trens etc. para a
sociedade.
Gastos
com educação e saúde elevam
o ativo humano, pois deixam os indivíduos mais produtivos e depois menos
custosos para o Estado.
Gastos
sociais, como o Bolsa Família, redistribuem renda numa sociedade imensamente
desigual e garantem mais consumo, uma demanda agregada maior. Algo semelhante
acontece com os aumentos reais de salário mínimo.
A
grande maioria dos economistas mais respeitados no mundo vêm defendendo que o cerne
da recuperação dos países é
elevar a demanda agregada.
Por
conta da desaceleração de nações como a China, que estavam puxando os demais, e
por conta da concentração excessiva de riqueza e renda, não há consumo
suficiente para dar conta da produção, que veio aumentando muito nos últimos
anos com os avanços tecnológicos.
A
forma de o mundo voltar a se desenvolver consideravelmente é incluir mais
pessoas na economia, fazer com que mais gente possa consumir e, para isso, é
preciso reduzir as desigualdades.
Para
que o aumento de consumo não venha a gerar novos desequilíbrios lá na frente,
como inflação, é interessante que a redução das desigualdades não seja apenas
por distribuição de dinheiro, mas por aumento de produtividade via melhoria de
infraestrutura e do nível de capital humano (educação e saúde).
As
referidas despesas primárias são importantíssimas para o desenvolvimento
econômico. Se a PEC 241 passar também no Senado, tal
como é hoje, será um desastre para a economia, e não é possível
que os membros do Ministério da Fazenda não vejam isso. Mesmo com a reforma da
Previdência, ela espremerá tanto alguns gastos essenciais que sequer é viável;
é inexequível.
Quanto
às despesas não primárias, gasta-se centenas de bilhões em juros, os mais altos
do planeta. São mais de 20% de todas as despesas.
O
Brasil, ano a ano, faz o que se chama de rolagem de dívida, paga a contraída no
passado com dinheiro de nova dívida. Há quem use esse número para elevar o
valor de juros pagos, mas isso é obviamente um erro.
Por
outro lado, contabilmente, há aí despesas e, financeiramente, há desembolso. Em
suma, há uma perpetuação da dívida e do pagamento de juros astronômicos.
Juros
são a remuneração pelo tempo que alguém detém o dinheiro de outrem. O ideal de
um empréstimo é que ele seja pago logo, a menos que o retorno do investimento
daquele dinheiro seja maior do que os juros pagos, algo incomum.
Quanto
mais se paga juros – por conta de o percentual ser alto e, se for alto, é pior
que o tempo seja longo –, mais chances de o empréstimo não ter valido a pena.
No Brasil, paga-se juros altíssimos e a dívida apenas aumenta.
Defensores
da PEC usam uma cortina de fumaça para fugir do real problema, ao criticar quem
infla o valor dos juros com os valores da dívida rolados. A questão é que o
País está pagando dívida, juros altíssimos e contraindo nova dívida, o que não
gera retorno. É um círculo vicioso que provoca enorme aumento das despesas
estatais.
O
déficit brasileiro não estourou por conta das despesas primárias, que crescem
regularmente desde 1997, apesar de que poderiam ser otimizadas: reduzir
corrupção e má eficiência, por exemplo, para gastar melhor.
O
déficit se deve à queda de receitas (provocada pela falta de demanda agregada
que gera queda de vendas), às desonerações tributárias e ao aumento de despesas
por quase duplicação dos juros de 7,25% em janeiro de 2013 para 14,25% em
janeiro de 2016, tendo havido redução de míseros 0,25% há alguns dias.
Some-se
a isso que boa parte do aumento dos gastos nos últimos tempos se deu por compra
de dólar pelo Brasil para constituir sua reserva e por transferências de
títulos para bancos federais, como explica Felipe
Rezende.
Caíram
as receitas e houve muitas despesas não primárias, mas o governo quer corrigir
o déficit congelando as despesas primárias. Há erro de avaliação e de proposta
de solução.
Onde
está o cerne do problema da dívida: nas despesas primárias, que, como dito, têm
potencial para tirar o País da crise econômica e não cresceram fora da curva,
ou nas despesas financeiras, que têm apenas gerado desembolsos de centenas de
bilhões em juros?
É
essa a decisão que o Brasil precisa tomar, e não parece ser difícil quando o
tema é colocado de forma honesta e clara.
Para
pagar a dívida, é preciso que sejam geradas receitas de outro lugar, que não de
novas dívidas, como o Brasil faz. Deve-se gerar mais receitas tributárias com
urgência. É necessário elevar a demanda agregada, para que se consuma e se
venda mais e, então, se arrecade mais.
Para
que haja mais demanda agregada e maximização das receitas, é necessário
destravar a economia. Não há outra saída melhor em curto prazo do que corrigir
um grave desequilíbrio brasileiro: o pior sistema tributário do mundo.
Sim,
o Brasil tem uma das piores políticas fiscais do planeta: juros no topo e o
sistema tributário mais complicado, extenso e regressivo. Ela faz o Brasil refém do rentismo e não beneficia a produção, tanto que
o País se desindustrializou nos últimos anos.
A
insistência em não reformar a tributação e manter um nível sobre a indústria
que é mais do que o dobro da carga dos países da OCDE, enquanto que o nível da
tributação da renda da pessoa física e da riqueza está bem abaixo do nível
nesses mesmos países, é acreditar – ou fingir que se acredita – que a carga tributária já é
muito alta e que não
se pode mais mexer nela.
A
carga é altíssima para os pobres e classe média, mas baixa para os muito ricos.
É necessário reformar a tributação de cima a baixo.
Não
é apenas uma questão de acabar com a isenção de dividendos, mas de reformular
quase tudo, para que, com a queda da tributação do consumo, ocorra redução nos
preços e da inflação. Ao mesmo tempo, se pode obter mais receitas com o fim da
isenção dos dividendos, a correção nas deduções permitidas no Imposto de Renda
e a criação de novas alíquotas mais altas para os mais ricos.
Parece
claro o que deve ser feito no Brasil. Poucos grandes economistas estrangeiros
discordariam do que está sendo dito neste texto. Seus trabalhos recentes
confirmam os argumentos.
Basta
conferir os estudos de conservadores como Olivier Blanchard, Larry Summers e Allan Greenspan, que assumiram ter
contribuído para a crise de 2007-2009 e não ter ferramentas para lidar com ela
a partir dos sistemas teóricos que antes defendiam.
Está
na hora dos membros do Ministério da Fazenda e dos demais apoiadores da PEC 241
se atualizarem e fazerem como Greenspan, ex-presidente do banco central
americano por quase 20 anos, que, após ser posto contra a parede por conta da
crise, disse que tinha cometido erros graves por cegueira ideológica.
Muitos
brasileiros continuam defendendo posições que vão exatamente na linha geradora
da crise. O resultado não poderá ser outro: aumento da desigualdade e mais
crise.
*Marcos
de Aguiar Villas-Bôas, doutor pela PUC-SP, mestre pela UFBA, é conselheiro do
Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda e
pesquisador independente na Harvard Law School e no Massachusetts Institute of
Technology
Fonte: CARTA CAPITAL 26 de outubro 2016 05h06m
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 29.10.2016 07h24m
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