SBT abre o palco para espancadores de
mulheres no programa Casos de Família
Jarid Arraes
A televisão brasileira é um verdadeiro espetáculo
de misoginia. Entre propagandas que objetificam as mulheres e novelas que
exibem estupros inadequados para a faixa etária indicativa da programação,
ainda sobra espaço para programas sensacionalistas que promovem o famoso
“barraco” na tentativa desesperada de ganhar audiência. Um exemplo desse tipo
de baixaria disponível em canais abertos é o caso mais recente do programa
“Casos de Família”, exibido na tarde desta segunda-feira pelo SBT.
O programa chegou ao cúmulo de montar o palco para
que homens que agridem mulheres falem abertamente que “mulher que não gosta de
apanhar, tem que se comportar”. Os homens convidados assumiram que batem, sim,
nas mulheres – e apesar da apresentadora Christina Rocha fazer um discurso que
soa indignado, o mais revoltante é o fato de que o espaço foi aberto e ninguém
ousou “meter a colher” nos crimes. Afinal, por causa das atualizações feitas na
Lei Maria da Penha, hoje qualquer pessoa pode denunciar a violência doméstica e
a causa não depende mais da vontade da mulher agredida para correr na justiça.
Será que ninguém da produção do programa pensou em denunciar porque estavam
mais empolgados em criar o circo faminto por polêmica?
Na chamada do programa,
que pode ser assistida no Youtube, a pergunta inicial é: “As
mulheres devem suportar tudo por amor?”. Em nenhum momento se
questiona qual é a responsabilidade dos homens nessas agressões; pelo
contrário, naturaliza-se o tema como problema feminino, sugerindo que tudo é
questão de haver mulheres que se submetem a violência. A irresponsabilidade do
SBT é chocante e revoltante não só pela forma desastrosa como conduzem o
problema, mas principalmente pelo fato de disponibilizarem o espaço para que
agressores misóginos tenham voz em rede nacional, onde fizeram ameaças contra
suas esposas e outras mulheres e tentaram agredi-las fisicamente em um horário
em que até mesmo as crianças estão assistindo televisão.
É quase inacreditável, mas não deve passar sem
consequências. Os machistas que assistiram ao programa e se sentiram
contemplados pelos espancadores de mulher ali presentes certamente estão muito
mais fortalecidos em suas convicções misóginas. Já as mulheres que são vítimas
podem acabar com a autoestima ainda mais fragilizada, vendo que até mesmo a
televisão permite que a violência doméstica seja propagada livremente. Para
fechar o quadro vergonhoso exibido pelo SBT, a psicóloga do programa, que
permite ser chamada de “doutora Anahi”, disse que a violência ocorre porque as
mulheres se submetem aos agressores. Que tipo de Psicologia é essa?
As feministas já estão se mobilizando e enviando
e-mails para órgãos responsáveis, como a Procuradoria
Geral da Mulher e o Ministério
Público, exigindo que o SBT responda legalmente pelo seu
ato de inconsequência e exploração do sofrimento feminino. Vale ressaltar que
as denúncias também podem ser feitas ligando para o Disque 180, pois as
mulheres ali expostas merecem proteção e têm direito ao cuidado do Estado.
Para o SBT e o programa Casos de Família, deixo a
mensagem: o que vocês fizeram é uma vergonha!
Jarid Arraes - integrante do FEMICA, colunista
na Revista Fórum, cordelista e graduanda em Psicologia
Adaptado pelo blog do SINPROCAPE - 19.06.2014 10h26m
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