REFORMA TRABALHISTA COM 'DEDO PATRONAL' EXIGIRÁ
MAIS DOS SINDICATOS
Centrais
protestam nesta sexta-feira contra mudanças. E apontam para uma paralisação
nacional se a PEC da Previdência avançar
A Lei 13.467, que faz alterações profundas na legislação
trabalhista, entra em vigor neste sábado (11) ainda sem as
"compensações" prometidas pelo governo e com aplausos apenas de um
lado – o patronal. O novo arcabouço legal traz várias propostas que foram
apresentadas em documento da Confederação Nacional da Indústria. O Ministério
do Trabalho, inclusive, apropria-se do termo "modernização" usado
pela CNI para definir a "reforma", que nesta sexta-feira será objeto de
protestos por todo o país.
Tornada
realidade – há uma campanha em curso para angariar adesões a um abaixo-assinado
para um projeto de iniciativa popular que
a revogue –, a lei exigirá nova postura dos sindicatos, em momento ainda mais
adverso pela provável perda de recursos de custeio. Mais conversa com o
trabalhador, mais ação dentro dos locais de trabalho, algo que as empresas,
historicamente, sempre buscaram evitar.
Um
dos primeiros testes foi enfrentado pelos trabalhadores no setor químico do
estado de São Paulo. Sindicatos da categoria ligados à CUT, à Força Sindical e
à Intersindical se uniram para realizar uma campanha conjunta. Do lado
empresarial, uma lista com pelo menos 15 itens para mexer na convenção
coletiva, já pensando na nova lei, que entra em vigor justamente no mês da
data-base dos químicos.
Unidos,
eles conseguiram reajuste com base na variação integral do INPC e a manutenção
de todas as cláusulas. Foi montado um grupo de trabalho bipartite para, ao
longo do próximo ano, avaliar os impactos das mudanças na legislação. O acordo foi assinado nesta
semana.
Para
o coordenador político da Fetquim, a federação do setor químico ligada à CUT,
Airton Cano, os desafios vão exigir muita "capacidade intelectual" e
mobilização – na porta e dentro da fábrica. "O sindicalista que não
estiver interagindo nesse processo vai ter problema no ano que vem. Não pode
ficar esperando acontecer, tem de antecipar movimentos", avalia.
Ele observa que
os empresários iniciaram as negociações neste ano já com disposição de mexer na
convenção. "As empresas já estão querendo aplicar alguns pontos da reforma
trabalhista", diz, citando o trabalho temporário. Algo que irá exigir
maior compreensão e análise do processo produtivo.
Também haverá
uma "disputa" intensa pelo trabalhador, a quem os sindicatos terão de
enfatizar o risco que representa a nova lei, em termos de perda de direitos e
da importância da convenção coletiva. "Cada cláusula, cada vírgula, foi
muito difícil de colocar lá. A premissa é que tem manter todas", diz
Airton.
Quem está em
plena negociação são os petroleiros, que têm data-base em 1º de setembro. A
Petrobras, que pretende mexer no acordo coletivo, marcou nova reunião
justamente para esta sexta-feira, às 10h, no Rio de Janeiro. "A retirada
de direitos também está na pauta da gestão da empresa e vem sendo duramente
combatida pela FUP, que vem alertando a categoria desde o início da campanha
reivindicatória de que o Acordo Coletivo terá o tamanho da luta dos
petroleiros", diz a Federação Única dos Petroleiros.
Para o
presidente da Fitmetal, federação interestadual dos metalúrgicos ligada à CTB,
Marcelino Rocha, cabe aos sindicatos impor-se como "principal
defensor" dos trabalhadores. "É necessário intensificar a organização
no local de trabalho, dialogar de modo mais direto e frequente com as bases,
investir em campanhas de sindicalização e, acima, de tudo, propor saídas
consequentes à crise, que levem em conta os interesses dos trabalhadores",
afirma o dirigente em entrevista à revista Princípios.
Reivindicações atendidas
Uma breve leitura do documento 101 Propostas para Modernização Trabalhista,
elaborado pela CNI em 2012, mostra o quanto governo e Congresso incorporaram
sugestões da indústria no projeto que virou lei em julho. Na ocasião, a presidenta Dilma
Rousseff, ainda no primeiro mandato, recebeu o documento em evento da
entidade, e respondeu que a redução dos custos da produção prioridade do
governo, mas – “diferentemente do contexto internacional” – sem redução de
direitos dos trabalhadores.
Depois da
deposição de Dilma por um golpe parlamentar, vários itens do documento foram
parar na Lei 13.467, como prevalência do negociado sobre o legislado, mais
espaço para negociação individual, intervalo intrajornada, ultratividade das
normas coletivas, jornada 12x36, terceirização, horas in itinere e
divisão das férias, entre outros. (Confira
ao final deste texto alguns pontos da nova lei).
Assim, o
presidente do Conselho de Relações do Trabalho da CNI, Alexandre Furlan,
celebra a "guinada substancial" das relações do trabalho no Brasil a
partir deste sábado, vendo na nova lei uma conciliação da "função
protetora do trabalho com a sustentabilidade empresarial e a competitividade da
economia". Mas, segundo ele, a implementação será feita de maneira
cautelosa: "Vamos apoiar a inserção da lei de maneira sensata, buscando o
equilíbrio e a valorização da negociação coletiva".
Airton, da
Fetquim, lembra que a ofensiva neoliberal não se limita ao Brasil. Neste
momento, a Argentina de Mauricio Macri também discute mudanças nos campos
trabalhista e previdenciária. "Em alguns aspectos, lembra a (reforma
trabalhista) brasileira", diz o secretário-geral da CGT argentina, Juan
Carlos Schmid, em entrevista publicada ontem (9) no jornal El País. O sindicalista
lembra que lá o governo não tem maioria parlamentar e prevê mais resistência.
Enquanto
protestam contra a Lei 13.467, centrais e sindicatos tentam se preparar para as
próximas negociações, em novo cenário, e também miram a ainda não abandonada
reforma da Previdência, via proposta de emenda à Constituição (PEC) 287. Um
"absurdo anunciado, que avilta, rebaixa e desdenha dos nossos direitos dos
trabalhadores", define o presidente da UGT, Ricardo Patah. "Ano que vem tem eleição: toda a sociedade precisa se unir
para vetar a reforma previdenciária, que assim como a nova lei trabalhista é
uma verdadeira violência contra os trabalhadores."
"A reforma
trabalhista de Temer alterou 100 itens da CLT, todos em benefício dos
empresários e prejudiciais à classe trabalhadora", afirma o presidente da
CUT, Vagner Freitas. "Temer legalizou o bico e promoveu um retrocesso de
mais de 70 anos nas relações de trabalho no Brasil. Vamos denunciar na OIT
e em todas as redes sociais e nos nossos sites o desmonte dos direitos
trabalhistas e os deputados e senadores que votaram a favor dessas medidas
criminosas."
Segundo o
secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna, que espera
de 15 mil a 20 pessoas amanhã cedo na Praça da Sé (região central de São
Paulo), diz que o ato será em repúdio à Lei 13.467 e também uma
"preparação para o debate que virá sobre a Previdência". Ele afirma
que o movimento sindical se prepara para uma paralisação nacional no dia em que
o Congresso fixar uma data de votação da PEC.
As mudanças
legais também provocaram polêmica no mundo jurídico – a controvérsia aumentou
depois que o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Ives Gandra
Martins Filho, defendeu a nova lei e voltou a criticar suposto
"protecionismo" do Judiciário. Editoriais saíram em defesa de Gandra,
enquanto magistrados questionaram o posicionamento.
A Anamatra,
associação nacional da magistratura trabalhista, lembra que a Lei 13.467 entra
em vigor "ainda envolta em ambiente de acirrada controvérsia, em todos os
nichos sociais e especialmente no âmbito jurídico, mercê dos inúmeros preceitos
que suscitam dúvidas de convencionalidade e de constitucionalidade". Mas
acrescenta que a discussão nas Varas do trabalho e nos tribunais não será
"caudatária", mas decorrente "dos próprios defeitos e
imprecisões inerentes à lei aprovada". Ou seja, exigirá interpretações, o
que não significa recusa à aplicação da lei.
A entidade lembra
que em momento algum "propôs 'boicotes', 'sabotagens' ou 'guerrilhas' de
qualquer ordem, para empregar algumas das infelizes designações veiculadas por
setores diversos da mídia escrita". E acrescenta que a própria
Anamatra, juntamente com ANPT (associação dos procuradores), Abrat
(advogados trabalhistas) e o Sinait (auditores-fiscais), ao avaliar os
possíveis cenários e apontar dúvidas, apenas refletem a realidade: "Não a
criam, em absoluto".
"A lei não
traz segurança jurídica", diz o presidente do Tribunal Regional do
Trabalho da 2ª Região (TRT-2, que abrange a Grande São Paulo e a Baixada
Santista), Wilson Fernandes, refutando um argumento usado repetidamente pelo
governo e por entidades empresariais. "Cria uma nova ordem, oposta à que
sempre tivemos, que tinha como pano de fundo a proteção ao trabalhador
(considerado a parte mais fraca). A nova lei elimina esse pressuposto. Suscita
muita dúvida de interpretação", acrescenta. "É preciso que a
jurisprudência se pacifique, e isso vai demandar muito tempo."
Fonte: REDE BRASIL ATUAL - 10 de novembro 2017 - 08h16m
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE - 10.11.2017 - 16h35m
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