Entrevista
“O OBJETIVO DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA É
PRIVATIZAR”
Eis o propósito do projeto do governo Temer, afirma
a economista Denise Lobato Gentil
por
Márcio Bueno — publicado 03/02/2017
12h37
"Uma
ideia única de aposentadoria em um território tão diverso e complexo não passa
de crueldade"
CartaCapital: Por que a alegação do governo de que a Previdência Social é deficitária não se sustenta?
Denise
Lobato Gentil: De acordo
com os artigos 194 e 195 da Constituição Federal, a Previdência tem receitas
que o governo não contabiliza, entre elas a Contribuição Social sobre o Lucro
Líquido, a contribuição para o financiamento da Seguridade Social, o PIS-Pasep,
as receitas de loterias. O governo não leva em consideração essas receitas e ao
mesmo tempo superestima os gastos.
DLG: O motivo real é a privatização. É fazer com que os brasileiros,
desanimados com o tempo de contribuição dez anos mais elevado, e com a idade de
65 anos para obter apenas 76% do benefício, desistam da Previdência pública e
se encaminhem para um plano privado.
CC: É possível a definição de uma idade mínima para
todos em um país com desigualdades regionais e sociais tão profundas?
DLG: Uma idade única para um território tão diverso e
complexo como o Brasil não passa de crueldade. Pretender estabelecer uma idade
de 65 anos para a aposentadoria de um trabalhador rural do Maranhão, que tem
uma expectativa de vida de 65 anos, significa dizer que ele não vai viver o
suficiente para ter uma aposentadoria. Só vai contribuir, nunca
usufruir do benefício.
CC: Qual o impacto nos pequenos municípios?
DLG: Nos 70% dos municípios mais pobres, a receita da Previdência Rural
representa, em média, 17% do PIB. Eles têm as suas economias dinamizadas com
essas receitas. O próprio Orçamento público municipal depende da Previdência.
A
retirada dos benefícios da população rural vai significar a desorganização da
produção agrícola familiar. E, provavelmente, vai atingir o abastecimento de
alimentos nas cidades, o que pode resultar em elevação de preços.
CC: A PEC 287 é recessiva?
DLG: Sim, é recessiva. Ela vai reduzir a renda, o gasto
do governo com aposentadorias e pensões, o que vai diminuir o consumo das
famílias, provocar uma queda do PIB e, portanto, menor arrecadação. O corte dos
gastos implica mais desajuste fiscal.
CC: O que devem fazer os cidadãos, os trabalhadores?
DLG: Resistir é a única saída. Eles vão passar por um
processo de depressão da renda tão violento que não têm escolha. Ou resistem ou
vão passar por um processo, principalmente os idosos, de extermínio.
Denise Lobato Gentil: Doutora em Economia
pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ),
mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Pará
(1986) e Bacharelado em Economia pelo Centro de Estudos Superiores do Estado do
Pará (1981).
Fonte: CARTA CAPITAL 03 de fevereiro 2017 12h13m
Adaptado pelo Blog do SINPROCAPE 11.02.2017 09h00m
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